Mário Sérgio Cruz

Especial para TenisBrasil

A disputa do US Open marca o retorno de Luísa Stefani às competições para seu primeiro torneio desde a final de Wimbledon, ao lado da canadense Gabriela Dabrowski. Número 4 do mundo entre as especialistas em duplas, a brasileira não disputou os WTA 1000 de Montréal e Cincinnati enquanto tratava de um desconforto no cotovelo e avalia que a decisão foi acertada, visando os objetivos da reta final do ano.

“Foi a decisão correta de tirar esse tempo para realmente tratar da lesão, em vez de me afobar e já tentar jogar”, disse Stefani em entrevista exclusiva a TenisBrasil nesta quarta-feira, durante a preparação para o último Grand Slam do ano.

“Eu penso na minha experiência de 2024, que foi um ano que eu estava com dores e segui jogando at´´e o final do ano, sem realmente parar para tratar. Depois acabei fazendo uma cirurgia no joelho. Então, as experiências do passado me ajudaram nessa decisão para não deixar ficar mais sério do que é”, avaliou a paulista de 29 anos.

A parceria entre Stefani e Dabrowski é a segunda melhor da temporada, com títulos no piso duro de Dubai, no saibro de Estrasburgo e na grama de Eastbourne. A liderança do ranking é um objetivo para a dupla, mas sem tirar o foco dos resultados em quadra.

“Acho que é mais tangível pensar nos resultados que a gente quer alcançar nos torneios. Não sou o tipo de jogadora que fica contando os pontos e vendo o quanto e quem está na frente vai somar e defender. É logico que é gratificante chegar ao meu melhor ranking, mas ter bons resultados é o mais importante”.

Fora das quadras, a brasileira e a canadense têm uma forte relação de amizade. E nos últimos anos, Stefani também esteve ao lado de Dabrowski quando a parceira foi diagnosticada com câncer de mama. A tenista revelou no fim de 2024 que disputou toda a temporada enquanto realizava tratamento, manteve sua condição em segredo para lidar com todas as terapias de forma reservada.

“Ela lidou incrivelmente bem! A Gaby tem esse lado forte, resiliente e super disciplinada. É super inspirador estar próxima dela. Eu estava nos bastidores dando o apoio dentro do possível, a gente não estava jogando juntas na época, mas tentei estar lá como amiga da melhor maneira que se dá para fazer nessas situações. Veio um grande aprendizado para ela e para mim, que nos ajuda até hoje na nossa parceria a passar por grandes dificuldades”.

Stefani jogou a chave de duplas mistas do US Open, com o britânico Neal Skupski. Apesar da derrota na estreia, para a forte parceria da neozelandesa Erin Routliffe com o britânico Lloyd Glasspool, foi importante para dar ritmo nesse retorno às competições: “Depois de uma recuperação que dura um mês mais ou menos, sem ter muito ritmo de jogo, foi super importante para me testar. Você acaba sentindo as sensações do jogo, que não importa o quanto você treine, são impossíveis reproduzir”, avaliou.

Confira a entrevista com Luísa Stefani

Como foi o período de recuperação da lesão nas últimas semanas e como está o cotovelo?

Foi ótimo, no sentido do objetivo estar sendo cumprido para estar pronta para jogar o US Open. Essa era a meta mais importante. Obviamente, um período assim demanda um pouco mais de paciência e calma. Os primeiros dias foram mais difíceis, mais na questão mental, de ter que estar lidando com uma dorzinha chata, mas era só um incômodo mesmo.

Foi a decisão correta de tirar esse tempo para realmente tratar da lesão, em vez de me afobar e já tentar jogar em Toronto e Cincinnati. Eu penso na minha experiência de 2024, que foi um ano que eu estava com dores e jogando e empurrando com a barriga antes de tratar e acabei jogando at´´e o final do ano, sem realmente parar para tratar e depois acabei fazendo uma cirurgia no joelho.

Então, as experiências do passado me ajudaram nessa decisão para não deixar ficar mais sério do que é. Muito devido ao volume de jogos, de um grande ano que a gente vem fazendo e que demandou bastante do corpo. Foi uma decisão sábia e a recuperação foi super dentro do planejado. Fui super cautelosa, em vez de me afobar e jogar esses torneios sem estar 100% preparadada e que poderia atrapalhar a nossa performance. Ainda temos grandes objetivos pela frente até o final do ano.

Como avalia essa temporada com a Gaby, com três títulos e sendo campeã em todos os pisos?

Excelente, incrível de todas as formas. Tem sido uma parceria de sucesso dentro e fora das quadras. O trabalho em equipe é super gostoso de fazer parte. Estamos curtindo o processo e indo bem nos torneios, o que ajuda mais ainda.

Tudo se deve ao trabalho que a gente está fazendo com os nossos treinadores. A vibe está muito boa em todo essa ano e isso a caba refletindo nos jogos, da maneira como a gente consegue se impor. Temos ótima quimica dentro da quadra. E quando a gente consegue essa sinergia, é um time super forte. Começamos o ano bem e tivemos um ótimo verão europeu, com duas semis de Slam e uma final e isso me dá certa tranquilidade para fazer boas escolhas fisicamente de pular esses dois torneios e estar pronta para a próxima grande meta.

Você está atualmente com o melhor ranking da carreira e a parceria em segundo lugar na corrida pro Finals. A disputa pelo nº 1 de duplas aparece no horizonte de vocês?

Acho que sim. É uma coisa que aparece pelo contexto do nosso ano. Tanto como dupla, como nos rankings individuais. Mas é algo que eu não gosto muito de pensar, porque não é a melhor maneira como eu funciono. Óbvio que é excelente estar no meu melhor ranking, mas isso só vem os resultados. Se o nível está bom e os resultados são consistentes, o ranking vai aparecer.

Acho que é mais tangível pensar nos resultados que a gente quer alcançar nos torneios. Não sou o tipo de jogadora que fica contando os pontos e vendo o quanto e quem está na frente vai somar e defender. É logico que é gratificante chegar ao meu melhor ranking, mas os bons resultados são os mais importantes.

A Gaby tem uma história muito inspiradora, por tudo o que precisou superar. O quanto você esteve próxima dela nesses momentos, desde o diagnóstico e como foi ver uma amiga passar por isso?

Eu fiquei sabendo em 2023. A gente tinha se afastado um pouco naquela época depois de ter parado de jogar juntas. Mas mesmo assim, pouco tempo depois, ela ficou sabendo do diagnóstico. Nos bastidores a gente estava super em contato. Eu tive uma tia minha que havia passado por algo parecido, estava com algumas pessoas próximas passando por algo parecido. Obviamente cada caso é um caso.

Mas ela lidou incrivelmente bem dentro do possível. Ela tem esse lado forte, resiliente, super disciplinada e que é super inspirador de estar próximo. Ela lida bem com esses desafios e transparece lidar bem mesmo nos momentos mais difíceis.

Eu estava nos bastidores dando o apoio dentro do possível, a gente não estava jogando juntas, mas tentei estar lá como amiga da melhor maneira que se dá para fazer nessas situações. Dito isso, veio um grande aprendizado para ela e para mim, que nos ajuda até hoje na nossa parceria a passar por grandes dificuldades. São coisas da vida, que é muito mais do que tênis, performance e resultados, ganhar e perder. Acho que esse tipo de susto que a vida dá é o que fortalece e ensina as maiores lições. E ela fez incrivelmente bem.

A gente teve um momento super legal, em Wimbledon, que tivemos a honra de conhecer a Princesa Kate, de Gales, que foi super emocionante e inspirador esse momento porque elas trocaram um pouquinho sobre as experiências delas. Foi um momento super impactante. Super inspirador estar do lado dela, depois de tudo o que passou.

E como ela está hoje? Continua fazendo tratamentos e foi totalmente liberada para voltar a jogar?

Essa seria uma pergunta mais para ela, mas a Gaby fala abertamente que continua fazendo tratamento. Acho que ela seria mais capaz de elaborar pessoalmente, mas segue tratando e jogando muito bem como vocês podem ver. E nós atletas sempre cuidando da saúde da melhor maneira possível nesse esporte que a gente faz.

E nesse retorno, quais foram as sensações que você teve em quadra, não só da lesão em si, mas também do tempo de bola e o ritmo por ter ficado esse tempo sem competir?

Eu tava super animada, muito faminta para jogar, porque tive pouco tempo para treinar situações de jogo, com a bola viva. Cheguei há alguns dias em Nova York para treinar pontos, mas a gente estava fazendo um treinamento bem progressivo para voltar a jogar. E foi ótimo para sentir as condições da quadra, que está bem rapida. Pontos rápidos, de saque e primeira bola. Já é normalmente assim nas duplas, mas foi muito importante para sentir as condições de jogo.

Enfrentamos uma uma dupla super forte. E depois de uma recuperação que dura um mês mais ou menos, sem ter muito ritmo de jogo, foi super importante para me testar. Você acaba sentindo as sensações do jogo, que não importa o quanto você treine, são impossíveis reproduzir: Jogar 30-iguais, enfrentar saques difetentes e variações. Você precisa solucionar os problemas da quadra. Então é um evento legal de se fazer parte. É mais um passo da minha recuperação e preparação para a dupla feminina na semana que vem.

O US Open é o seu Grand Slam favorito por todas as campanhas que você teve? É onde você mais gostaria de vencer, ainda mais com a Gaby?

Hoje, sim, e o que eu mais gostaria de vencer, porque a gente vai jogar na semana que vem. É o que está mais no meu horizonte agora. E adoro jogar aqui, gosto da energia, das condições, a Gaby também gosta de jogar aqui e já teve bastante sucesso. E é o último Grand Slam do ano, com um gás a mais e muita motivação.

Logo depois do US Open, a gente também terá o SP Open, torneio que você já venceu no ano passado com a Timea. Como fica também a sua expectativa por jogar em casa e como você tem acompanhado o momento do tênis feminino brasileiro?

É super legal ter mais uma edição do SP Open. Espero que as pessoas que foram no ano passado tenham curtido e queiram voltar e também que mais gente possa aproveitar o torneio. Principalmente em São Paulo, que é a minha casa, onde nasci e morei grande parte da infância.

Jogar em casa é incrível, por estar perto da família, dos amigos e de pessoas que nem sempre podem viajar no circuito. Então, trazer essa experiência para o Villa-Lobos é super especial. Fico muito animada.

Obviamente o US Open vem antes e acaba sendo uma transição super rápida para gente virar a página, de Nova York pra São Paulo, mas é uma grande festa para todo mundo que faz parte do tênis brasileiro, porque tem muito trabalho envolvido e muita gente que mexeu os pauzinhos para dar essa oportunidade para a gente e trazer o tênis feminino de novo nesse porte do torneio. O Lui [Carvalho] tem feito um grande trabalho na organização e estou super animada que a Gaby também está no mesmo pique para jogar junto em São Paulo.