Alexander Zverev sempre foi um temido adversário em partidas de melhor de três sets. Seu rol de resultados deixam isso muito claro. Ganhou não apenas dois Finals, a medalha olímpica e sete Masters, como também derrotou 14 vezes o mágico conjunto formado por Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic, a maioria delas no auge dos deuses das quadras.
Os Grand Slam, com partidas potencialmente mais longas e exigentes, surgia como seu maior problema. E não era apenas uma questão emocional, mas também de saúde. O alemão convive com diabetes tipo 1 desde os quatro anos de idade e a flutuação da glicemia causava quedas de intensidade que pareciam inexplicáveis até que ele revelou o problema em 2022, pouco depois da terrível contusão em Roland Garros que rompeu três ligamentos do pé direito e o levou à cirurgia e a dura recuperação.
Quem sabe, não tenha sido essa soma de fatores que mudaram Zverev. Ele jogava seu melhor tênis quando veio o acidente e, de certa forma, precisou começar de novo. Mas, no fundo, acredito que o surgimento de Jannik Sinner e Carlos Alcaraz tenha tido efeito mais importante, porque mostrou a ele o quanto era preciso mudar conceitos para se manter competitivo depois do Big 3.
Muitos irão dizer, e não sem razão, que Zverev se beneficiou nestes últimos quatro meses das brechas oferecidas por Sinner, precocemente batido em Roland Garros e ausente no US Open, e por Alcaraz, que não foi nem a Paris, nem a Londres e acabou barrado por Ben Shelton em Nova York. Mas não há demérito nisso. O alemão capitalizou a chance que se apresentou e, em todos os casos, apresentou um tênis digno do resultado atingido.
Importante aproveitar esse gancho para enaltecer o evidente progresso técnico e físico de Sascha nesta temporada, aquele tenista que um dia foi abandonado pelo técnico Juan Carlos Ferrero porque não se empenhava o bastante na preparação. Dono de primeiro saque bombástico e um dos melhores backhands da história, ele trabalhou para ganhar solidez com o forehand, ficou mais versátil nas deixadinhas, perdeu o medo dos voleios, passou a cobrir melhor a quadra, evoluiu na resistência e, com isso, aumentou seu poder defensivo. Basta ver que ele brilhou em três pisos muito distintos, que exigem uma somatória de habilidades.
O resultado é que agora vemos um Sascha mais completo, mais confiante e mais saudável. Por isso, ele era favorito para ganhar de Shelton na final deste domingo e cumpriu a missão com louvor. Ganhou um essencial tiebreak do segundo set, e os tiebreaks são um misto de controle emocional e ousadia, o que permitiu perder a intensidade, algo completamente comum num jogo longo, e depois recuperar a hegemonia com sobras.
Foi um tanto divertido quando Zverev ganhou o jogo e não percebeu. Mostra uma realidade que os profissionais costumam assinalar, mas nem sempre parece verdade: por vezes estão tão concentrados na performance que não percebem o placar. Depois, mostrou-se simpático e cheio de empatia ao cumprimentar o pai Bryan, enaltecer a família Shelton na arquibancada e especialmente falar com carinho da mãe Irina, quase anônima no circuito, mas a quem Sascha afirmou dever muito de sua resiliência com a doença.
O título coloca o alemão como líder do ranking da temporada por 700 pontos, o que indica luta direta com Sinner pelo número 1 já a partir de Pequim e Xangai, onde os dois serão os principais cabeças.
Não acho que Zverev tenha atingido – ou atinja em algum momento – o patamar do italiano ou de Alcaraz, que são superiores praticamente em tudo. Mas ambos mostraram fragilidade recente e, acima de tudo, que não estão imunes à demanda hercúlea do circuito atual. Portanto, o alemão está, sim, no páreo para novos capítulos de sucesso.
Quanto a Shelton, ele subiu mais um degrau e, como salientei no artigo anterior, é um jogador que ainda tem muitos detalhes a corrigir, dos quais a consistência seja o mais significativo. E isso, afinal das contas, é uma excelente notícia tanto para ele como para o tênis.
