Felipe Priante
Da Costa do Sauípe, Especial para TenisBrasil
Depois de encarar uma temporada dura em 2025, em que chegou a figurar no top 100 e terminou na 197ª colocação, e passar por alguns periblemas físicos agora em 2026, o cearense Thiago Monteiro vive momento de recuperação neste segundo semestre, saindo do 303º lugar no final de julho, o pior em 10 anos, para atualmente ocupar a 233ª colocação e seguir em busca da volta ao top 200 ainda neste ano.
Eliminado na segunda rodada no Costa do Sauípe Open, challenger 125 disputado nesta semana, Monteiro está ganhando provisoriamente 11 posições. Com três semis e um vice no ano, ele acredita que irá recuperar seu melhor tênis e coloca como primeiro objetivo conseguir um lugar no quali do Australian Open.
Já com seus 32 anos, completados no final de maio, o canhoto cearense não apenas acredita que possa voltar ao melhor nível, como também mantém alguns sonhos maiores, o principal deles é vencer seu primeiro ATP. Para isso, ele se inspira em nomes como o francês Adrian Mannarino, o alemão Jan-Lennard Struff e o argentino Marco Trungelliti, todos que recentemente conseguiram sucesso já depois dos 30.
Veja a entrevista completa com Monteiro:
Sua temporada passada foi dura, começou com alguns bons resultados, chegou a fazer duas finais de challenger seguidas, mas aí veio uma lesão, nove derrotas seguidas e as coisas acabaram não se encaixando. Como é que foi encarar todos esses problemas e depois tentar dar a volta por cima em 2026?
Bom, ano passado foi uma temporada diferente, a primeira que eu comecei a ter alguns problemas físicos, lesões. Acho que a lesão veio no jogo contra o (Kei) Nishikori no Australian Open. Passei o quali e vinha jogando muito bem, mas então contra o Nishikori eu venci os dois primeiros sets, e tive dois match-points, mas no final do terceiro, em algum momento do meu saque, senti um leve estalo ali no adutor. Logo depois do jogo, no dia seguinte, não conseguia nem levantar da cama direito. Se a gente tivesse ganhado, acho que nem teria jogado a segunda rodada. E aí acabou que eu tive realmente uma lesão que era de difícil recuperação, que foi um pouco mais longa do que esperado e um pouco mais complicada, porque eu queria também tentar já voltar para estar bem nos torneios da América do Sul. Voltei no ATP de Buenos Aires depois de um tempo, acabei que joguei o Rio Open e fiz segunda rodada, mas esse incômodo fui levando por muito tempo, até ali ter zerado só mais para agosto, setembro. Eu estava conseguindo competir, mas não estava ainda 100% confiante no meu físico, que sempre foi uma arma no meu jogo.
Nesse período, você fez duas finais seguidas de challenger, mas depois chegou a perder nove partidas. Isso mexeu com a confiança, não?
Com certeza. Logo depois dessas duas finais de challenger, eu já estava ali realmente carregando um pouco a lesão em si, mas o objetivo era classificar para a chave de Roland Garros, que eu acabei jogando e vieram as derrotas seguidas. Em algumas semanas eu estava me sentindo bem para jogar, mas depois vinha algum incômodo físico de novo, então realmente isso abala, não só pelo fato das derrotas, mas abala quando você não se sente 100% competitivo, nos momentos difíceis não sabia se ia conseguir estar fisicamente ou mentalmente preparado para a batalha, porque hoje em dia todo mundo está super preparado, super treinado. Então a mínima dúvida que você tem ali, seja em algum golpe, seja em alguma parte física, ou de alguma lesão, influencia no resultado final. Foi realmente um ano difícil nesse quesito, mas sempre acreditei em algum momento estaria recuperado, voltar realmente a jogar o meu melhor tênis, treinando e focado em uma recuperação. Foi uma temporada um pouco diferente nesse sentido, mentalmente falando, mas hoje estou me sentindo super bem fisicamente, super bem com o meu tênis de novo.
Falando agora sobre a temporada de 2026, um ano de muitos jogos longos, algumas vitórias suadas e derrotas duras em 3 sets. Como você avalia o desempenho neste ano?
A gente vai aprendendo com o tempo, vai ficando calejado, né? Mas foi um ano que começou positivo também, acho que eu tive um bom Rio Open, passei o quali e joguei com o João (Fonseca), que vinha em um bom momento, e sabia que ia ser difícil, Mas tive boas vitórias contra o (Daniel) Vallejo, que hoje está 50 do mundo, o (Dusan) Lajovic, que está top 100 de novo. Tive que realmente parar algumas semanas por uma lesão no cotovelo, mas vinha bem, num processo de recuperação, de retomada e foi um pouco falta de sorte. Coincidiu também de eu ter feito pontos nas mesmas semanas que fui bem, então mesmo com duas semis (Brasília e Santiago) eu acabava caindo de ranking. Vinha me sentindo bem de novo, só que depois realmente tive uma parada um pouco mais longa por causa de uma lesão no LA Open, em que tive uma ruptura na posterior de seis centímetros. Esse momento foi mais duro, porque tinha boas perspectivas para voltar aos grandes torneios. E é um tipo de lesão que você tem que recuperar bem, tem que dar o tempo certo porque tem uma probabilidade de reincidência muito alta. Nisso eu perdi a possibilidade de me classificar para a Roland Garros e Wimbledon. Joguei alguns torneios na Europa, no início desse retorno e logo tive que parar porque vieram algumas dores no punho e cotovelo, coisa de quando você fica um tempo sem jogar. Foi um momento que acho que me fez amadurecer bastante também, repensar os objetivos da temporada. A partir do meio do ano, nos torneios na Europa, consegui estar já competitivo e 100% recuperado. Foram oito semanas, com uma final de um torneio super duro na Polônia, que é um challenger 125, que foi muito importante para a confiança.
E essa temporada de recuperação acabou sendo um pouco mais difícil do que você esperava ou estava dentro do previsto?
Foi mais duro por conta da lesão em São Paulo, por causa do estiramento, que foi um baque no momento. Particularmente sempre funcionei melhor jogando em ritmo, com quilometragem, como a gente fala, numa sequência de 5, 6 torneios. Poucas vezes na vida eu fui muito bem no primeiro e no segundo, sempre somava jogos e, aos poucos, vinha o resultado. Joguei torneios duros na volta, sentia que estava jogando bem, mas perdia jogos muito equilibrados, isso foi afetando muito a confiança e o ânimo mesmo, foi o momento mais difícil. Nos torneios, todo mundo está jogando bem, está em um nível muito alto e qualquer um pode ser campeão, é muito equilibrado. Sabia que seria duro e que teria sempre que tentar extrair a cada semana o meu melhor tênis para poder ter chance de estar me recuperando. Agora vem sendo um momento bom, porque eu estou muito próximo de voltar para classificar para o quali do Australian Open, que é um dos objetivos que a gente colocou a curto prazo. São poucos pontos, sei que o trajeto é difícil, o retorno é duro, mas a disposição está novamente em alta, espero não ter nenhum imprevisto, nenhum contratempo, dores ou alguma coisa assim.
O pessoal fala muito que o circuito está cada vez mais equilibrado, cada vez mais profissional, que hoje em dia é mais difícil escalar o ranking do que alguns anos atrás. Você sente isso também?
Sem dúvidas. Você pega ano passado, o (Valentin) Vacherot estava fora do quali de Xangai, fora do top 200, e o cara ganhou um Masters 1000. Hoje, você vê que ele é um cara que joga muito e se firmou já e recentemente ganhou um 500, então é uma oportunidade, uma semana ali que gira a chave e pode ser o divisor de águas. Aqui mesmo no Sauípe, tem vários europeus que trazem físio, trazem treinador, a galera investe porque realmente é muito importante, senão você fica para trás. A escalada está mais difícil, com certeza, o nível é muito parelho. Joguei na primeira rodada contra um juvenil de 17 anos (Leo Storck) , que vai ser um grande talento. Foi um jogo duro, se eu não tivesse num dia bom, se eu não tivesse jogado um bom nível de tênis, teria sido derrotado. A cada jogo você tem que estar 100% com a faca nos dentes, para sair vivo da guerra.
Você está com 32 anos, já sente alguma diferença com a idade? Tem mais cuidado com o físico? O que mudou nesses seus últimos anos para continuar jogando em um nível alto?
Algumas coisas, principalmente no ano passado depois da lesão diante do Nishikori, senti que tinha que mudar um pouco, porque eu sempre gostei de treinar muito, de fazer volume, mas então tive mudar esta mentalidade e dar mais ênfase realmente à questão do corpo mesmo, da fisioterapia, da recuperação. Por exemplo, antes eu sentia que eu podia fazer um jogo dificílimo, no outro dia às 10 da manhã já estava bem para treinar e depois jogar de novo. Hoje, já noto que, no dia seguinte, acabo um pouco mais dolorido. Por mais que você faça banheira de gelo, massagem, coma bem, sempre no dia seguinte sente um pouquinho do resquício, algo que antes não sentia tanto. Nas viagens também é o que eu mais senti diferença. Às vezes, fazia uma viagem longa do Rio para a Austrália, 25 horas, descia do avião, ia para o clube bater bola, mas hoje tenho que esperar uns dois dias, dormir bem para poder ir para o clube e treinar. Então, tem essas diferenças, sim, mas você vai se adaptando, entendendo melhor o corpo para poder estar competitivo.
Você falou sobre viagens e passou um bom tempo deste ano jogando torneios seguidos na Europa, sendo que havia torneios também na América do Sul. Por que optou por esse calendário?
Porque eu sinto que as condições na Europa, ainda que os torneios sejam mais duros, são mais favoráveis. Consigo jogar um tênis melhor lá porque eles têm mais essa consistência com as condições de quadra, de bola. Por exemplo, aqui, se eu tivesse optado por jogar os torneios da América do Sul, eu ia ter que jogar em Curitiba, que é um super torneio, mas tem altitude, aí logo de seguida tem que sair para Antofagasta no nível do mar, onde as condições já não são legais, uma outra bola, que é um coco, as quadras bem suspeitas. Depois sair de Antofagasta, uma viagem até a Bolívia, então essas viagens, na verdade, acabam desgastando muito porque toda hora você está se adaptando a uma nova condição. Fora que as distâncias também são muito maiores e financeiramente fica tudo mais caro, por isso eu optei por fazer esse calendário na Europa. Realmente era mais cômodo, mais fácil de viajar, os lugares eram mais próximos, eu me sentia melhor em quadra e, consequentemente, conseguia ter um rendimento melhor,
Depois de um bom tempo no circuito, muitas experiências diferentes, o que te motiva a continuar?
Essa é uma boa pergunta. Esse ano eu me peguei, nesses momentos difíceis, refletindo bastante sobre isso. O tênis ensina muito, acho que a competição em si, mas também a superação, o quanto a gente é privilegiado, abençoado de poder estar vivendo essa vida, é um sonho. Eu sempre sonhei em poder estar vivendo isso, estar nos grandes torneios, já joguei todos os Grand Slam várias vezes, ganhei rodada em todos os Grand Slam, joguei duas Olimpíadas, tive boas vitórias na carreira, então tive muito mais do que eu realmente sonhava. Hoje em dia eu acho que a motivação vem de você querer se superar a cada dia, porque no fundo quem é a pessoa que tem mais dúvida mesmo é você. Sei que estou mais perto do fim do que do começo, ganhei meu primeiro jogo ATP em 2016. Sei que tem uma galera que joga até os 42, mas eu não vou jogar até os 42 com certeza (risos). Venho desfrutando e acho que, enquanto eu me sentir bem em quadra, sentir que tenho essa chama dentro de mim que me faz superar cada dia, que me faz ter o prazer da rotina, do processo, acho que é o que é mais importa.
Você falou sobre objetivos e que um deles é se classificar para o quali na Austrália. Quais são as metas que ainda te movem, o que você vê ainda nesse horizonte?
Acho que ainda tenho nível de jogo e potencial para estar voltando ao top 100, estar jogando de novo a chave dos Grand Slam, mas no momento é estar voltando para os qualis, conseguindo ter um ano consistente de resultados e fisicamente bem. Acho que há chances reais de conquistar o primeiro ATP, que também sempre foi um objetivo desses últimos anos. Bati na trave ali algumas vezes, fiz algumas semis e quartas. Bater o melhor ranking também é possível, mas acho que estar voltando ali ao top 100 e jogar os Grand Slam novamente, seria um grande objetivo a ser conquistado aí para esses próximos anos.
Um dos caras que você enfrentou mais de uma vez neste ano foi Marco Trungelliti, que nesta temporada fez sua primeira final de ATP e estreou no top 100, tudo isso aos 36 anos. Isso serve de inspiração?
Sem dúvidas, o (Jan-Lennard) Struff também ganhou o primeiro ATP dele, acho que ano passado (na verdade em 2024), quando ele tinha 34 também. Ele já tinha feito finais e é um grande jogador, não fico me comparando, mas sem dúvidas é possível. Tem também o (Adrian) Mannarino,que teve o melhor ano da carreira recentemente já aos 35. Estando bem preparado, uma chance aparece e você consegue aproveitar, o nível é muito próximo, então é estar preparado para quando o momento chegar. É um passo de cada vez, o momento agora é outro, se adaptar à realidade de agora, tentando somar o máximo de jogos possíveis, entrar no top 200 de novo e aos poucos ir construindo essa confiança, essa sequência de jogos, um retorno sólido.
Olhando para frente, você já pensa no pós-tênis ou ainda o foco é todo no circuito?
Não é algo que eu ainda penso seriamente, que tenha decidido se penso em ser treinador, comentarista, mas às vezes você pensa eventualmente. Não tem nada decidido, quando chegar o momento de parar vou ter um tempo para mim, um período sabático, porque o tempo na estrada foi longo. Aí depois posso definir exatamente o que farei. Recentemente falaram que levo jeito para ser treinador, é engraçado. Anos atrás eu não teria pensado nisso e hoje as opções são diferentes, o momento é diferente, mas ainda sigo focado na minha carreira, nos objetivos que conversamos aqui, junto com a minha equipe.
Entre as coisas que você ainda quer fazer, voltar a jogar a Copa Davis também está entre os planos, ainda que não dependa só de você?
Entre minhas melhores semanas da carreira, muitas foram na Copa Davis, sempre desfrutei bastante estar com o time ali, é uma competição diferente e única. Lembro quando a gente foi para o Grupo Mundial e o João (Fonseca) estava fazendo sua estreia no time, hoje ele é o raquete 1 e um grande nome no tênis brasileiro. Poder retornar ao time brasileiro seria muito especial e estou sempre aberto. A última Davis não fui cogitado por conta do ranking, nas outras em algumas eu estava lesionado e em outras priorizei mais o calendário. (Thiago) Wild tem jogado super bem, (Gustavo) Heide também e estão quase top 100, então o sarrafo ficou mais alto. Mas é algo que tenho em mente sim, adoro a Copa Davis, é uma competição muito especial. Poder ajudar o time a jogar um Grupo Mundial foi incrível, ficamos a um set de ir para a fase final. Quem sabe a gente não consegue se classificar para os últimos oito no futuro.
