Mário Sérgio Cruz

Especial para TenisBrasil

Com dois títulos de Masters 1000 nas últimas semanas, em Montréal e Cincinnati, Rafael Matos e Orlando Luz já percebem uma mudança de status no circuito de duplas. Primeira parceria 100% brasileira a vencer torneios deste nível, Matos e Luz já estão em Nova York, iniciando a preparação para o US Open, e conversaram com a imprensa nesta terça-feira.

Os gaúchos entendem que as conquistas recentes e o salto no ranking já os coloca no mesmo patamar dos candidatos ao título do último Grand Slam do ano e na busca por vaga no ATP Finals.

“Quando a gente chegou em Cincinnati, eu percebi o maior respeito das pessoas nos parabenizando, principalmente vindo dos melhores do mundo. Meio que eles entendiam a dificuldade daquilo e dava para sentir que era bem sincero”, disse Rafael Matos a TenisBrasil, durante a coletiva de imprensa.

O parceiro Orlando Luz complementou: “A gente ganhou um pouco mais de respeito das duplas, principalmente do top 5. São caras que estão todas as semanas, ganhando Masters 1000 e Grand Slam. Você também ganha jogos no vestiário. Esse respeito bota a gente no mesmo patamar deles para disputar os torneios maiores”.

O jogador de 28 anos também falou sobre a possibilidade de ter o jogo mais estudado pelos principais adversários: “Hoje a tecnologia permite estudar os jogadores, tenho certeza que todos estudaram mais para jogar contra a gente. E agora cada vez mais”.

Invictos há dez jogos no circuito, Matos e Luz entendem que algumas dessas partidas representaram uma virada de chave. Em especial, a estreia no Canadá contra a forte dupla italiana de Simone Bolelli e Andrea Vavassori, seguida pela partida contra o português Francisco Cabral e o norte-americano J.J. Tracy, em que os gaúchos salvaram dois match-points.

“Acho que a virada de chave foi contra os italianos. Nunca tinha jogado contra eles, mas sabia que era uma dupla forte que estão no top 8. E logo depois, salvamos dois match-points, que dão ainda mais confiança. E jogamos a final contra [Marcelo] Arevalo e [Mate] Pavic, que é uma dupla que cresci assistindo. Depois daquela vitória, eu já estava com uma cabeça diferente”.

O canhoto Rafael Matos, de 30 anos, cita ainda a partida das quartas em Montréal, por conta do estilo de jogo dos adversários, o argentino Guido Andreozzi e o francês Manuel Guinard: “É um estilo que nos incomoda um pouquinho mais. Já havíamos feito dois jogos contra eles, com uma vitória e uma derrota. E na rodada seguinte, tivemos uma motivação extra de saber que os cabeças 1 tinham perdido”.

A sequência também mudou a percepção dos próprios jogadores sobre o que podem alcançar. “A gente trabalha para isso, mas quando acontece é difícil acreditar”, admitiu Luz. O gaúcho nunca havia disputado uma quartas de final de Masters 1000 e, em Cincinnati, chegou novamente à decisão depois de avançar pelas quartas e semifinais. “Então fazer duas semanas seguidas é impressionante”.

A vaga no ATP Finals, que reúne as oito melhores duplas da temporada, também passou a ser um objetivo mais concreto. Atualmente, eles ocupam a sexta posição na corrida para Turim. “Imaginar que a gente pode chegar ao Finals é grandioso e era o nosso maior objetivo. O ano é longo, mas ter essa meta nos ajuda a buscar os resultados”, afirmou Luz. “Todo mundo quer ver essa dupla 100% brasileira fazendo coisas cada vez maiores. Tenho certeza que a torcida está querendo o US Open”.

Para Matos, a parceria também representa uma continuidade da história recente do tênis brasileiro nas duplas. “A gente, quando era menor, vivenciou André [Sá], Marcelo [Melo] e Bruno [Soares]. Sempre tivemos essa porta aberta e me sinto honrado de fazer um pouco do que esses caras fizeram”, disse. Depois do título em Montréal, ele chegou a conversar com Marcelo Melo. “Falei para ele que faltavam oito para chegar nos dele. Estou muito feliz com esses dois títulos e com o que a gente fez nessas duas semanas”.

Os gaúchos também atribuem parte da sequência à amizade construída desde os tempos de juvenil. “Como a gente falou em Cincinnati, acho que essa amizade nos faz muito fortes nos momentos importantes. Além de ter um parceiro do seu lado, é bom ter um amigo que te entende e sabe o que você está passando. Estou bem feliz com nossa comunicação, que foi fundamental para essas conquistas”, afirmou Matos.

Luz destaca que a relação ajuda a dupla a atravessar os momentos de dificuldade durante as partidas. “A gente se ajuda. Tem dia que um está melhor, o outro está com dor ou mais nervoso. E às vezes isso muda durante o próprio jogo. A dupla é jogada com super tiebreak e sem vantagem. São muitos pontos decisivos e a diferença entre perder na primeira rodada e chegar à final é muito pequena. Na primeira semana, salvamos dois match-points já na segunda rodada”.

Período sem vitórias e volta da confiança em challenger

A dupla também passou por um período de três meses sem grandes resultados, com direito a seis eliminações seguidas em estreias, mas manteve a rotina. “A gente não mudou nada. Apenas seguimos fazendo o trabalho em que acredita”, contou Matos. “Nos treinos, estávamos super bem contra as melhores duplas do circuito. Muitos jogos foram decididos no detalhe. Quando a maré está ruim, parece que sempre cai para o outro. Agora a maré está virando para o nosso lado”.

O canhoto cita o título do challenger de Braunschweig, em julho, como um ponto importante para recuperar a confiança. “Depois dali, a gente voltou a jogar nosso melhor tênis. Foi essencial. Fez a gente voltar para subir no ranking e nos ajudou a entrar na chave em Montréal”. Para Luz, a escolha do calendário também foi importante, inclusive quando significou disputar torneios menores. “Acredito que os calendários foram escolhidos da melhor forma, mesmo quando você tem que dar um passo atrás e jogar um challenger. Foi o que fez a gente chegar com toda a confiança em Montréal”.

Apesar da sequência recente, a dupla evita projetar demais os próximos torneios. “A gente pensa jogo a jogo, independente do torneio que vai jogar. A única coisa em que pode focar é no presente”, resumiu Matos. O gaúcho também falou sobre o sonho de disputar uma Copa Davis no Rio Grande do Sul: “Eu me lembro de assitir àquele confronto Brasil e Equador no Gigantinho, em Porto Alegre, quando era pequeno. Vivi aqueles cinco jogos, me marcou muito e tenho muita vontade que aconteça esse confronto”.

A possibilidade de disputar os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 2028, também está no radar. Orlando Luz, que foi medalhista de simples e duplas nos Jogos da Juventude, ainda em 2014, quer repetir o feito também entre os profissionais. “Subir no pódio, receber a medalha é bem diferente. É um dos nossos objetivos, mas no momento é um pouquinho distante, de datas, não tanto de resultados. Vamos seguir trabalhando para conquistar esse objetivo”.