Depois de se destacar em competições da categoria 14 anos do circuito, a juvenil paranaense Eduarda Gomes realizou uma temporada de torneios mais fortes em quadras duras na Ásia, enfrentando adversárias até quatro anos mais velhas. A experiência inédita na jovem carreira da tenista foi avaliada positivamente pelo pai e treinador Sullevan Bueno.
Nas últimas quatro semanas, Duda disputou o J100 de Kawaguchi, o J200 de Miki e o quali do J500 de Osaka, no Japão, além do qualificatório para o J200 de Chuncheon, na Coreia do Sul e obteve três vitórias em simples. Já nas duplas, a atual 417ª do ranking chegou a disputar uma semifinal na primeira semana, ao lado da australiana Tori Russell.
“Fomos com um objetivo claro: sair da zona de conforto. Jogar em quadras duras, enfrentar estilos diferentes e competir contra jogadoras mais maduras e experientes”, relatou Bueno nas redes sociais. “Depois de tudo que vivemos, queríamos proporcionar à Duda uma experiência completamente diferente. Não atravessamos o mundo apenas em busca de resultados. Fomos em busca de dificuldades”.
“Queríamos colocá-la em situações novas, nas quais precisasse encontrar soluções dentro da quadra, se adaptar, competir desconfortável. Além de aprender com outra cultura de treinamento e competição. Acreditamos que evoluir também é isso: enfrentar aquilo que ainda não dominamos”, complementou. “E havia algo ainda mais especial: conhecer esses países era um sonho dela”.
Em entrevista a TenisBrasil, o pai e treinador deu mais detalhes sobre a experiência asiática e o trabalho com a jovem tenista: “Ela sempre adorou tudo sobre o Japão e Coreia do Sul. Gosta de ler mangás e assistir séries. Até aprendeu o vocabulário, com palavras em japonês e coreano. Fiquei com isso na cabeça e comecei a ver que tinham torneios J100, J200 e o J500 de Osaka também. Mas até então era uma realidade distante por vários fatores, principalmente financeiro e logístico. Mas quando estávamos na Europa, jogando um torneio na Holanda, fiz amizade com os técnicos”, acrescentou Bueno, ao destacar o trabalho de Yoshinori Nakayama, que há mais de uma década trabalha com o desenvolvimento do tênis feminino no Japão.
“Tinha um diretor da Federação Japonesa que estava viajando com duas meninas da idade da Duda, que são muito boas. Elas acabaram até sendo finalistas do Mundial na República Tcheca, perderam da Itália no jogo de duplas. E o Yoshi, como ele é chamado, acabou me ajudando com indicações de onde treinar e como me locomover lá. O cara me fez acreditar. E aí faltava buscar o dinheiro, consegui o principal aporte da Soderling, com uma boa grana, e com uma empresa de inteligência artificial”.
“Na Ásia são todas muito boas taticamente nesse tipo de piso, são agressivas, pegam bola na subida. Se você colocar uma bola na quadra sem propósito, vai perder o domínio do ponto e fica muito difícil voltar. Pode até se defender bem, mas você precisa saber sacar e devolver muito bem e ter muita intenção nas primeiras bolas. Se jogar uma bola nada a ver, ferrou”, comenta. “A Duda aprende, mas eu aprendo também. O Japão é fantástico, o pessoal trabalha muito sério. São muito focados. E eu também sou fanático por cultura asiática, aprendi muito e já estamos aplicando nos treinos com ela depois dessa gira”.
Temporada de evolução no circuito
Nascida na pequena cidade de Palmas, com aproximadamente 50 mil habitantes e localizada na fronteira com Santa Catarina, Eduarda Gomes começou a jogar tênis aos oito anos, por influência de toda a família, não apenas dos pais, mas também de um tio e do avô. Ela disputou suas primeiras competições aos 10 anos, em 2022: “Naquela época, a Bia estava em ascensão, mas não tinha chegado ao top 20. Não tínhamos outras referências. O pessoal meio que desestimulava. Era quase como ser astronauta na realidade que a gente vivia”, contou o pai.
Na atual temporada, a paranaense tem 24 vitórias e 14 derrotas em simples pelo circuito mundial juvenil da World Tennis. Ela defendeu o Brasil no Sul-Americano e no Mundial de 14 anos, além de ter participado de seus dois primeiros torneios do Grand Slam, Roland Garros após vencer o Junior Series em São Paulo, e Wimbledon depois de ser campeã da Copa Cosat nas quadras de grama de Bragança Paulista.
“Ela já tinha jogado o Mundial ano passado, não era uma novidade, e já estava mais cansada porque era a 12ª semana dela na Europa. Mas aproveitou mais em Roland Garros. A gente chegou a falar com a Justine Henin, ex-número 1 do mundo, que deu uma dica: ‘Nessa primeira vez, aproveite. Não foque em resultados, deixa ela conhecer o máximo que puder’. E seguimos o conselho dela à risca, assistimos Djokovic, Sabalenka, Berrettini, Rublev, Mensik. Vimos muito tênis. Jogamos contra a melhor ranqueada da idade dela. E daí tivemos um bom tempo em Roland Garros”.
Admiradora de Mirra Andreeva e Carlos Alcaraz, a jovem tenista falou, em recente entrevista a Podcast TenisBrasil, sobre sua aptidão para jogar na grama. “Gosto mais da grama por ter condições um pouco mais rápidas que no saibro e até que a quadra dura e gosto bastante de volear. Então prefiro jogar na grama”, disse Duda Gomes, que também comentava sobre o que mais admirava no espanhol: “O inside out, as curtas e o saque”.
Durante uma série de torneios na grama, tanto no Sub-14 quanto no Sub-18, também pôde observar de perto alguns profissionais de alto nível que se preparavam para Wimbledon, como a campeã de 2025 Iga Swiatek, como relata o pai e treinador: “Depois de Roland Garros, encontramos a Bia no trem, indo pra Inglaterra. Tentei fazer a temporada de grama mais longa possível, trabalhar fundamentos a esse tipo de piso. Ela disputou um torneio de 14 anos no All England Club, complexo de Wimbledon, foi semifinalista de simples e campeã de duplas. E lá estavam a Iga, o Mensik e o Dimitrov. Treinamos no St George’s Hill, no norte de londres, e no Vicars Moor Lawn Tennis Club que tem quadras de grama sintética. O Rafael Pacciaroni, ex-técnico da Bia, nos indicou”.
Duda também marcou seu primeiro ponto na WTA, ao avançar uma rodada no W35 de Barueri, vencendo um duelo da nova geração contra a catarinense Maria Eduarda Carbone. A jovem tenista precisa ainda avançar em mais dois torneios diferentes ou acumular dez pontos para entrar no ranking profissional. “Foi especial porque é o mesmo clube em que ela venceu o Banana Bowl de 12 anos”.
Estratégias parecidas adotada por Fonseca e Naná
O planejamento feito pela equipe de Eduarda Gomes é parecido com o que foi adotado no início da temporada pelo time da paulista Nauhany Silva. Em janeiro, ela disputou uma série de torneios profissionais em quadras cobertas na Inglaterra nas semanas do Australian Open juvenil.
A equipe coordenada na época por Léo Azevedo, então Head Coach da Rede Tênis, entendia que Naná já havia tido uma experiência de jogar na Austrália no ano anterior e ainda teria mais uma oportunidade jogar o juvenil de Melbourne no ano seguinte. E que naquele momento, seria mais proveitoso para a jogadora ter a experiência de enfrentar adversárias diferentes e conhecer o ambiente em que estará inserida no circuito profissional. “Estamos pensando no desenvolvimento da Naná a longo prazo. Ela vem jogando bem e é importante proporcionar novas experiências. Precisamos focar nessa parte do processo”, explicou Azevedo em janeiro.
Uma escolha parecida foi feita pela equipe de João Fonseca, comandada por Guilherme Teixeira, durante o período de transição da carreira. Em sua primeira temporada exclusivamente voltada para o tênis profissional, em 2024, o carioca jogou challengers na grama e nas quadras cobertas, ainda que os torneios no saibro parecessem mais atrativos em termos de pontuação.
“Tem uma fala do treinador do João, o Guilherme Teixeira, que a gente conversou: ‘Cara, faz ela jogar com menina diferente e bola diferente o quanto antes’. Ela nunca tinha feito uma gira em quadra dura outdoor. No início do ano, fez uma indoor no inverno lá, jogou na Polônia, Inglaterra e o Lês Petits As na França. Mas foi uma gira indoor”, relatou Bueno.
“Eu converso muito com o Leo, principalmente quando ele estava na Rede Tênis. E também o trabalho do pai da Naná. É uma jogadora muito promissora, assim como a Victória Barros. Porém são jogadoras diferentes. Então é difícil você tentar seguir o modelo uma da outra, porque a Victória mora na França, a Naná em São Paulo e eu em Palmas, uma cidade pequena”, acrescentou.
“Então o que eu posso falar. Sempre desafiamos a Duda desde o início. Ela sempre jogou categoria acima, sempre teve desafios, mas com equilíbrio de as vezes jogar na faixa etária dela e as vezes um pouco acima. E as vezes vai equilibrando as dificuldades porque não pode ser só porrada também. Ela precisa testar e ver o que precisa melhorar no próximo nível”.
Busca por vaga na Austrália
O próximo objetivo é buscar uma vaga no Australian Open, com a disputa do Junior Series na cidade paulista de Porto Feliz, entre os dias 13 e 18 de outubro. O evento concederá convites aos seus campeões para a chave juvenil do Melbourne de 2027 e estará aberto a jogadores sul-americanos nascidos entre 2010 e 2012. A depender do desempenho na seletiva, será estruturado o calendário do ano que vem.
“Jogar o Australian Open Junior Series, na Fazenda Boa Vista, em Porto Feliz. Daí vou dar uns dias de férias para ela e depois voltamos a treinar para tentar jogar outro torneio profissional. Ainda estou esperando alguns convites, mas ela não deve jogar mais ITF juvenil esse ano, vai mesclar mais os treinos com os torneios profissionais”.
“E conforme for, temos dois planos para o ano que vem: Um indo lá para a Austrália, jogando o J300 antes do Australian Open. Se ela não conseguir a vaga, devemos fazer a gira dos J300 na América do Sul. Por enquanto, é esse o plano. Nessa idade não adianta fazer um planejamento tão longo, mas queremos fazer uma boa gira de saibro logo depois do Australian Open e tentar classificar para Roland Garros de novo e mais Wimbledon que é grudado”.
Próximos passos e conselhos aos pais de tenistas
A equipe coordenada pelo pai também conta com a preparadora física argentina Claudia Castillo, especializada em tênis de alto rendimento e biomecânica. A ideia de Sullevan é de agregar novos profissionais conforme a condição financeira for melhorando e revela ter conversado com nomes do mercado brasileiro e internacional.
“Nossa equipe é formada por mim e pela Cláudia. Fazemos algumas semanas online e em outras ela viaja junto. Quero que ela viaje mais frequentemente e venha morar no Brasil. É uma profissional de mais de 50 anos, já trabalhou com vários profissionais. E inclusive me ajuda muito a formatar os treinos. Eu sinceramente nunca encontrei alguém tão bom quanto ela para essa faixa etária. Inclusive indico para mais jogadoras”.
“Assim que a parte financeira permitir, vamos querer agregar mais alguém. Já temos namorado nomes de peso, pensando no futuro. Tem dois técnicos de ex-números 1 do mundo. Ou o próprio [Thomaz] Bellucci, que já conversamos com ele. Mas só quando a nossa parte financeira permitir, porque além do salário alto desse tipo de profissional, é mais uma pessoa para manter na estada. Não temos pressa. Ela está se desenvolvendo bem”.
E como conciliar os papéis de pai e treinador e os conselhos para outros pais de tenistas? “É um pouco polêmico, mas temos que encontrar o equilíbrio. “De alguns pais, você precisa se afastar um pouquinho. Mas ao mesmo tempo a família tem que estar perto, cobrar dos treinadores e cada um entender a sua função. Os pais sempre na parte emocional e o treinador na parte técnica”.
“No meu caso, que faço as duas partes, não é fácil. Mas eu me baseio nos casos de sucesso. Exige muito estudo, minha informação e temos pessoas do mundo todo acabam nos ajudando. E mesmo assim, enfrentamos desafios. A gente vai tentando melhorar a cada dia”.
