Por Eduardo Faria *

Quem pratica esporte depois dos 50 anos provavelmente conhece a situação: você termina uma partida de tênis se sentindo bem, mas algumas horas depois ou na manhã seguinte aparecem a rigidez, o incômodo no joelho, no ombro, na lombar, no cotovelo ou no tendão de Aquiles.

É comum atribuir tudo simplesmente à idade, mas o que realmente acontece com o nosso corpo depois dos 50?

Não existe uma mudança repentina quando completamos 50 anos. O envelhecimento é um processo gradual, que envolve alterações nos músculos, tendões, ligamentos, articulações, ossos, sistema nervoso e na própria capacidade do organismo de se recuperar dos estímulos.

Para quem pratica esporte, existe ainda uma questão importante: enquanto algumas estruturas do organismo começam a apresentar menor capacidade de recuperação e adaptação, muitas vezes continuamos exigindo delas praticamente o mesmo esforço.

No tênis isso fica particularmente evidente.

O músculo não envelhece apenas perdendo massa

Quando pensamos em envelhecimento muscular, normalmente pensamos em perda de massa muscular. Mas essa é apenas uma parte da história.

Com o passar dos anos também podem ocorrer alterações na qualidade muscular, no recrutamento das unidades motoras e, principalmente, na capacidade de produzir força rapidamente.

Essa perda de potência é particularmente importante para o tenista.

Arrancar para uma bola curta, frear lateralmente, mudar rapidamente de direção, recuperar a posição na quadra e acelerar a raquete dependem de força, potência e coordenação neuromuscular.

Um jogador experiente continua sabendo exatamente o que fazer. Sua técnica e sua leitura do jogo podem inclusive ser melhores do que quando era jovem.

Mas o corpo pode já não executar e absorver esses movimentos com a mesma eficiência. E isso começa a aumentar a sobrecarga sobre determinadas estruturas.

Os tendões merecem atenção especial

Talvez uma das estruturas mais importantes para compreendermos as dores do esportista depois dos 50 seja o tendão. Os tendões fazem a conexão entre músculos e ossos e precisam transmitir enormes quantidades de força durante o movimento.

Com o envelhecimento, ocorrem alterações progressivas na organização e no metabolismo do colágeno, na atividade celular e na capacidade de remodelação do tecido.

Isso não significa que o tendão de uma pessoa de 50 ou 60 anos esteja necessariamente comprometido. Significa que sua resposta e seu tempo de adaptação às cargas podem ser diferentes dos de décadas anteriores.

E existe outro detalhe importante. O músculo pode responder relativamente rápido ao treinamento. O tendão apresenta uma adaptação mais lenta. Por isso, às vezes encontramos esportistas fortes e aparentemente bem condicionados que começam a apresentar tendinopatias recorrentes.

No tênis, isso ajuda a explicar a frequência de problemas no tendão de Aquiles, tendão patelar, ombro e região do cotovelo.

Articulações e cartilagens também passam por mudanças

As articulações não são estruturas inertes. Cartilagem, líquido sinovial, cápsula articular, osso subcondral, músculos e ligamentos trabalham conjuntamente para permitir movimento e absorver forças.

Com o envelhecimento, a cartilagem sofre alterações em sua composição e na capacidade de manutenção de sua matriz. Isso não significa, entretanto, que praticar esporte depois dos 50 “desgaste” inevitavelmente as articulações.

O exercício adequadamente prescrito continua sendo fundamental para preservar força, mobilidade e capacidade funcional.

O problema aparece quando existe um desequilíbrio entre a carga que colocamos sobre determinada estrutura e a capacidade que ela possui naquele momento para suportar, recuperar-se e adaptar-se a essa carga.

O esqueleto também está em constante transformação

Nossos ossos estão continuamente sendo formados e reabsorvidos. Com o avanço da idade, esse equilíbrio pode se modificar, levando progressivamente à redução da massa e da qualidade óssea em algumas pessoas.

Nas mulheres, essa questão merece atenção especial durante e após a menopausa, quando as alterações hormonais podem acelerar a perda de massa óssea.

Nos homens, o processo costuma ser mais gradual, mas também existem mudanças hormonais e metabólicas capazes de influenciar músculo, osso e recuperação.

Por isso, dois esportistas de 55 anos podem apresentar capacidades completamente diferentes. Idade cronológica não é sinônimo de idade funcional.

A coluna também sente essas mudanças

Os discos intervertebrais também envelhecem. Progressivamente podem ocorrer alterações na hidratação e na composição dos discos, assim como modificações nas articulações e demais estruturas da coluna.

Agora imagine essas mudanças associadas às exigências do tênis. Rotação do tronco, extensão, flexão, aceleração, frenagem e repetição. Não é difícil compreender por que a região lombar passa a merecer atenção especial no tenista que envelhece.

Mais uma vez, entretanto, encontrar alterações estruturais não significa necessariamente sentir dor. Existem pessoas com importantes alterações em exames de imagem que permanecem esportivamente ativas e sem sintomas.

O sistema nervoso também participa desse processo

Existe ainda uma parte do envelhecimento pouco percebida pelos esportistas: as mudanças neuromusculares. Para produzir um movimento, nosso cérebro precisa enviar informações aos músculos com enorme precisão.

Com o envelhecimento, podem ocorrer alterações no número e no funcionamento das unidades motoras e na eficiência do recrutamento muscular.

No tênis, pequenas diferenças podem produzir grandes consequências. Chegar um pouco atrasado à bola pode exigir uma frenagem mais agressiva. Golpear desequilibrado pode aumentar a exigência sobre o ombro. Uma recuperação mais lenta pode obrigar o jogador a realizar a próxima mudança de direção em uma posição menos eficiente.

Isoladamente, provavelmente nada disso provocará uma lesão. Mas devemos lembrar que uma partida envolve centenas de acelerações, desacelerações, rotações e golpes. A carga se acumula.

Depois dos 50, recuperação passa a fazer parte do treinamento

Esse talvez seja um dos conceitos mais importantes. O treinamento não termina quando acaba a sessão. Depois do exercício começa um complexo processo de recuperação, reparação e adaptação.

O organismo precisa restaurar seus estoques energéticos, reparar estruturas submetidas ao esforço, remodelar proteínas e tecidos e preparar novamente o sistema neuromuscular para o próximo estímulo.

Com o avanço da idade, alguns desses processos podem se tornar mais lentos.

Por isso, o problema nem sempre está no treino realizado hoje.

Pode estar no próximo treino chegando antes que o organismo tenha se recuperado adequadamente do anterior.

Treinar demais pode ser problema… de menos, também

Existe um erro comum quando falamos de esportistas acima dos 50 anos: acreditar que a solução seja simplesmente reduzir o treinamento. Não necessariamente. Excesso de carga pode provocar problemas, mas falta de preparação também.

Uma pessoa que joga tênis três vezes por semana, mas não desenvolve força, potência, mobilidade, equilíbrio e capacidade cardiorrespiratória fora da quadra, pode estar exigindo do corpo uma capacidade que não está sendo adequadamente treinada.

É por isso que costumo trabalhar com um conceito simples: não basta jogar tênis para ficar em forma. Também precisamos estar em forma para jogar tênis.

A musculação e o treinamento físico bem planejado tornam-se, portanto, ainda mais importantes à medida que envelhecemos. O objetivo não é transformar um jogador de 60 anos em um atleta de 25. É aumentar sua capacidade de suportar as exigências do esporte que escolheu continuar praticando.

Onde entra o mapeamento genético?

Dentro desse processo de individualização, o mapeamento genético aplicado ao esporte surge como mais uma ferramenta para compreender como cada organismo pode responder ao treinamento.

Na 5º SET, utilizamos a análise genética para identificar predisposições e potencialidades individuais e, a partir dessas informações, contribuir para um treinamento mais personalizado e assertivo, independentemente da idade ou do nível técnico do jogador.

Existem variantes genéticas associadas a características relacionadas à estrutura e função muscular, metabolismo energético, resposta inflamatória, defesa antioxidante, recuperação e características dos tecidos conjuntivos, entre outras.

O mapeamento genético não determina se alguém terá ou não uma lesão e não deve ser utilizado isoladamente para definir como uma pessoa deve treinar. Seu valor está justamente em acrescentar informações às avaliações tradicionais e ajudar o profissional a compreender melhor as características individuais de cada esportista.

Quando esses dados são analisados em conjunto com idade, histórico de lesões, condição física, rotina esportiva, avaliações funcionais e resposta aos treinamentos, podem contribuir para uma individualização mais criteriosa da dosagem das cargas, intensidade dos estímulos, períodos de recuperação e estratégias preventivas.

Especialmente depois dos 50 anos, quando a capacidade de recuperação e adaptação dos diferentes tecidos pode sofrer alterações, conhecer melhor essas características individuais podem ajudar a responder uma pergunta fundamental: não apenas quanto treinar, mas como treinar melhor para aquele organismo.

Para o esportista depois dos 50, essa individualização pode ser especialmente interessante.

A pergunta deixa de ser simplesmente: “Quanto uma pessoa da minha idade deve treinar?” E passa a ser: “Qual é a carga adequada para o meu organismo, para minha condição atual e para o esporte que eu pratico?”

Envelhecer não significa parar. Significa aprender a treinar diferente. Talvez essa seja a principal mensagem. O corpo muda depois dos 50. Músculos, tendões, articulações, ossos e sistema neuromuscular não apresentam exatamente as mesmas características que possuíam aos 20 ou 30 anos.

Mas isso não significa que a dor seja obrigatória ou que o esporte precise ser abandonado. Muito pelo contrário. O treinamento adequado é uma das principais ferramentas que temos para preservar força, massa muscular, capacidade cardiorrespiratória, mobilidade, equilíbrio, saúde óssea e independência funcional durante o envelhecimento.

O que precisa mudar é a estratégia. Treinar melhor passa a ser mais importante do que simplesmente treinar mais.

Para quem pretende continuar jogando tênis aos 50, 60, 70 anos ou mais, o objetivo não deveria ser lutar contra o envelhecimento. Deveria ser compreender essas mudanças e preparar o organismo para continuar fazendo aquilo que ele gosta.

Porque talvez a grande conquista do esportista depois dos 50 não seja jogar como jogava aos 25, é conseguir continuar entrando em quadra, treinando, competindo e se divertindo durante muitos e muitos anos.

Bons treinos!

Referências

1. Loeser RF. Aging and Osteoarthritis. Osteoarthritis and Cartilage, 2009.

2. Currier BS et al. Resistance Training Prescription for Muscle Function and Physical Performance. Medicine & Science in Sports & Exercise, 2026.

3. American College of Sports Medicine (ACSM). Exercise and Physical Activity for Older Adults.

4. American College of Sports Medicine (ACSM). Resistance Training Position Stand, 2026.

5. Lim JY, Frontera WR. Skeletal Muscle Aging and Sarcopenia. Journal of Biomechanics, 2023.

6. Wu Q, Huang JH. Intervertebral Disc Aging and Degeneration. 2017.

7. Single Nucleotide Polymorphisms and Tendon/Ligament Injuries in Athletes. Systematic Review and Meta-analysis, 2024.

8. Loeser RF. Age-related changes in cartilage and chondrocyte function. Osteoarthritis and Cartilage.

Licenciado em Educação Física, pós-graduado em treinamento esportivo e com diversas formações na área do treinamento físico e qualidade de vida, Eduardo Faria trabalha com tenistas desde 1986, ao lado de Fernando Meligeni, Flávio Saretta, Alexandre Simoni, Vanessa Menga e Thiago Alves, entre outros. Integrou a equipe da Copa Davis desde do final dos anos 90 até os dias atuais, atuando com nomes como Andre Sá , Bruno Soares, Marcelo Melo, Gustavo Kuerten e Marcos Daniel. É fundador da empresa ‘5º Set’, contendo o programa TFI (Treinamento Físico Inteligente), que combina testes físicos, mapeamento genético e avaliação nutricional para melhorar a performance de tenistas, do amador ao profissional: confira detalhes em quintoset.com.br.