Walmor Elias
Especial para TenisBrasil*
Um dos maiores capítulos da história do tênis brasileiro completa 60 anos neste final de semana. Entre 5 e 7 de novembro de 1966, o Brasil atingia um segundo feito espetacular na Copa Davis: após ganhar o Zonal Europeu em cima de Espanha e França, eliminou o poderoso time norte-americano no saibro de Porto Alegre de virada e garantiu inédita vaga na final interzonal da competição por países.
Nada levava a crer que o Brasil faria algo especialmente marcante na Davis daquele ano, uma Davis aliás bem à moda antiga, com jogos em melhor de cinco sets longos, entre sábado e segunda-feira. Como já acontecia desde a década de 1950, o time brasileiro competia no zonal europeu porque assim os jogadores poderiam aproveitar as passagens dadas pela Confederação e competir nos principais torneios do Velho Continente.
E o retrospecto dessa aventura era desfavorável, porque obviamente o Brasil sempre jogava como visitante, sujeito à escolha de piso dos adversários, sempre contra a torcida e muitas vezes diante de juízes perigosamente parciais, especialmente no então Leste europeu.
Na verdade, desde a estreia do Brasil na Copa Davis, entre 9 e 11 de junho de 1932, em Nova York, o Brasil vinha com muitos percalços e nos primeiros anos viveu períodos difíceis, incluindo WOs. Até 1956, só conseguimos quatro vitórias, a primeira contra o Uruguai, lá em Montevidéu, em 1935. Campanhas um pouco melhores viriam em 1957 e 59, com duas vitórias em cada temporada.
A década de 1960, no entanto, marca o amadurecimento da nossa equipe, pois surgia uma geração de ouro de novos talentos pós Armando Vieira, o melhor do período anterior. Surgiam Ivo Ribeiro, Carlos “Lelé” Fernandes, Ronald Barnes, José Edison Mandarino e o mais jovem, que deixou um legado extraordinário, Thomaz Koch. O grupo era promissor.
Chega o grande ano
Em Copa Davis, se demora muito tempo para formar um bom time, com no mínimo um grande jogador de simples e outro mais regular e sempre uma dupla bem forte, pois até hoje é um ponto decisivo. E isso se concretizou em 1966, embora os dois bons singlistas Koch e Mandarino também formavam a bela dupla. O quinteto tinha uma sinergia incomum, com Lelé, Ribeiro e o excepcional Ronald Barnes. Raramente tivemos um time tão bom. Mas Barnes teve desavenças com o presidente da época e ficou de fora de várias convocações.
Se olharmos o retrospecto do Brasil em 1966 veremos que os quatro confrontos vencidos fora de casa, na Europa, marcaram uma campanha esplendorosa. No primeiro confronto, veio a fácil vitória sobre a Dinamarca, no saibro de Copenhagen, e logo em seguida a vitória histórica sobre a Espanha, em Barcelona, que só veio na quinta partida. Eles tinham o número 1 do mundo Manolo Santana, o que marcou uma das maiores vitórias brasileiras na Copa Davis na história.
Poucas semanas depois, o Brasil foi a Varsóvia e bateu com autoridade os poloneses, por 4 a 1, marcado já um fato inédito, que era a presença do país na quarta rodada. Viria mais. Koch e Mandarino foram a Roland Garros para também atropelar a França de François Jaufret e Pierre Darmont, por 4 a 1. Éramos campeões do Zonal Europeu A. Que façanha!
Disputa para sediar o Interzonal
O adversário na fase Interzonal seria o campeão das Américas, nada menos que os Estados Unidos, que havia vencido em casa Ilhas Britânicas e México. Começou então uma disputa acirrada para saber onde seria o confronto. Os EUA fizeram de tudo para levar para Los Angeles ou Houston e chegaram até a sugerir realizar o duelo na Itália, já que o Brasil havia disputado o Europeu. Como atuais campeões, os australianos é quem tinham direito a decidir e fizeram isso em nosso favor, desde que houvesse um estádio para pelo menos 4 mil pessoas e assim os ingressos vendidos cobrissem as despesas.
São Paulo e Rio de Janeiro se candidataram, porém o fato de Koch e Mandarino serem gaúchos pesou. Mandarino nasceu em Jaguarão, com família também em Uruguaiana, e Koch simplesmente começou a jogar tênis aos 5 anos na Leopoldina Juvenil de Porto Alegre, onde seu pai criou o Departamento de Tênis e foi presidente, seu avô e bisavô estão entre os fundadores do clube. A família Koch ainda mora do outro lado da rua.
Realizado na semana anterior, o tradicIonal torneio Aberto da Argentina, que hoje se chama de ATP Buenos Aires, recebeu todos os tenistas que jogariam a Davis em Porto Alegre, à procura de adaptação completa. Na decisão, Cliff Richey ganhou de Mandarino, superou na semifinal o compatriota Dennis Ralston e na final bateu Koch, que por sua vez havia eliminado na semi Arthur Ashe. Isso seria decisivo para a formação das partidas da Davis.
O capitão americano George McCall e o técnico Pancho Gonzalez descartaram Clark Graebner por mau comportamento e escolheram Richey, Ralston, Ashe e Charlie Passarel. O capitão Paulo da Silva Costa, presidente da CBT e que também presidiu a Federação Internacional, chamou Lelé Fernandes e Ivo Ribeiro para se juntarem a Koch e Mandarino. O chileno Patrício Rodrigues ajudou na preparação dos brasileiros. O fisicultor e massagista da equipe era o professor Antônio Marques.
O evento foi uma parceria da CBT com a Federação Gaúcha que, com a renda,comprou a sua atual sede, de três salas no centro da cidade, hoje reduzidas a duas.
Os jogos tiveram ampla cobertura. Foram transmitidos pela TV Piratini, emissora local da antiga Rede Tupi, que mostrava o teipe no dia seguinte. No incêndio da Tupi esse material, com comentários de Íris Mendonça de Carvalho, foi perdido. A Rádio Guaíba, de Porto Alegre, transmitiu os cinco jogos ao vivo na voz inconfundível de Pedro Carneiro Pereira, o maior narrador esportivo gaúcho, tragicamente falecido em acidente automobilístico em Tarumã, em 1973, aos 35 anos. As reportagens eram de Lasier Martins.
EUA abrem 2 a 1: risco total
Nosso país nunca havia sediado um confronto tão importante. Mas o começo não foi bom. Koch abriu o confronto no sábado, não esteve tão bem e perdeu para Ralston, por 6/4, 6/4 e 6/0. “Não joguei bem e perdi para um tênis muito seguro do Ralston, que acabou até aplaudido pelo público. Ralston era muito experiente, havia feito final de Wimbledon quatro meses antes contra o Manolo Santana e jogava melhor do que eu”, relembra o canhoto.
Pior ainda, Richey, que já havia ganhado de Mandarino em Buenos Aires, entrava como favorito. Mas o gaúcho que vive há mais de 50 anos em Madri não se perturbou e, mesmo perdendo o primeiro set, empatou o confronto anotando 5/7, 6/3, 7/5 e 6/3. “Mandarino largou muito bem e derrotou Richey com uma tática perfeita de desgastar o adversário. Pela manhã, ele acompanhou o treino do americano e viu que o técnico matou Richey de tanto esforço. ‘Esse não me escapa’, garantiu Manda e, com efeito, no terceiro set Richey já estava com cãibra”, descreve Koch.
O domingo marcava a sempre fundamental partida de duplas. Os norte-americanos vieram com Ashe e Ralston, não deram bola para a torcida a derrotaram Koch e Mandarino, por 7/5, 6/4, 4/6 e 6/2. Antes mesmo de chegar em Porto Alegre, os EUA já falavam abertamente sobre como e onde enfrentar a Alemanha, dando também como certa a vitória do time europeu sobre a Índia na outra final interzonal. Neste dia 6, houve um jogo exibição não oficial entre os reservas das duas equipes e Lelé venceu Passarell, por 4/6, 6/3 e 7/5.
E veio a virada épica
A segunda-feira amanheceu chuvosa e tiveram de colocar uma lona para preservar a quadra para a rodada decisiva. “A quadra ficou coberta até as 13 horas. Quando liberaram, estava impecável. Mas não tinha tanto público, talvez pelo mau tempo, talvez pela vantagem americana. Assim que acabou meu jogo, foi enchendo rapidamente. O pessoal parecia estar seguindo o andamento do confronto pelo rádio”.
De fato, Koch foi categórico no quarto jogo da série, venceu Richey, por 6/1, 7/5 e 6/1, numa atuação de gala.”Fiz uma mudança arriscada de estratégia e joguei meu estilo de saque e rede, conseguindo dominar Richey. O jogo foi até fácil. Joguei a bomba para o Manda, que teria de ganhar do atual vice de Wimbledon e terceiro do mundo”.
O quinto jogo, já com as arquibancadas lotadas, foi um martírio, já que Mandarino venceu um extenuado Ralston no quinto set. Ele recorda: “Quando Thomaz me abriu a porta para poder disputar a partida decisiva, segui tranquilo, até terminar o quinto ponto do 5º set contra Dennis Ralston. Por que? Porque sempre pensei que eles eram melhores e que, se perdesse, era normal e, se ganhasse, seria a glória. E foi a glória. Para mim, pessoalmente, foi a maior vitória que tive na carreira”. O placar: 4/6, 6/4, 4/6, 6/4 e 6/1.
Festa em carro aberto
Mandarino resume o pós confronto e vitória sobre os americanos: “A festa foi espetacular, tive a sorte de contar com meu pai Giacomo e meus irmãos Rubens e Armando, que também participaram de todas as comemorações. Fomos num carro andando por todas as ruas de Porto Alegre, saudando a toda gente, gritando, cantando, rindo, chorando de alegria. Também paramos em frente ao hotel dos norte-americanos, a quem saudamos continuamente”.
Koch vai na mesma linha: “O público invadiu imediatamente a quadra e ergueu Mandarino nos ombros. Foram me buscar no vestiário para também me carregar em triunfo, enquanto Lelé se debulhava em lágrimas. Tocou Hino Nacional, pulamos na piscina do Leopoldina e logo se teve a ideia de uma passeata de uns 100 carros pelas ruas da cidade, tendo Manda e eu sentados no capô do primeiro veículo. Quando chegamos no centro, o povo nas ruas ovacionava. Surgiam bandeiras brasileiras de todos os lados”.
Os quatro heróis desta façanha do tênis brasileiro estão vivos e nos deixaram um grande legado para gerações que se sucederam. Koch mora no Rio de Janeiro, mas frequentemente volta a sua Leopoldina Juvenil. Mandarino reside há mais de 50 anos em Madri, com sua esposa Maria Carmen Hernández, grande campeã espanhola, mais conhecida como Carmen Coronado. “Lelé” está em São Paulo, cuida da sua saúde e frequenta o clube Paulistano. E Ribeiro permanece em Curitiba, morando ao lado do seu clube, o Graciosa. Todos com mais de 80 anos.
Outro tenista que integrou este grupo e participou destas campanhas e da grande geração, o genial Ronald Barnes, se fixou nos Estados Unidos, onde faleceu aos 61 anos, em 13 de dezembro de 2001, em, Nova York.
A façanha de 1966 provou outro “boom” do tênis no país, ainda na fase de vitórias e conquistas da incomparável Maria Esther Bueno. O grupo da Davis seguiu para outro desafio, agora na grama de Calcutá, entre 4 e 6 de dezembro, e ficou muito perto da vitória. Mas esta é história para daqui a um mês. Aguardem.
WALMOR ELIAS, gaúcho de Santa Maria, é bacharel em Comunicação Social e em Letras e Artes, também professor de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira e Literatura Portuguesa. Atuou como jornalista especializado em tênis por 13 anos no Correio do Povo e nas extintas Folha da Tarde e Folha da Manhã, de Porto Alegre. Entre 1977-89, foi dirigente da Federação Gaúcha e presidiu a entidade por seis anos, foi vice da Confederação Brasileira entre 1984 e 86 e presidiu a entidade entre 1990 e 93. Aos 70 anos, criou em 2023 e preside o importante Memorial Tênis Brasileiro. .
