Por Eduardo Faria*
Saúde mental é um dos temas mais discutidos atualmente no esporte. Casos envolvendo atletas profissionais ganharam espaço na mídia e ajudaram a mostrar que desempenho esportivo, sucesso e preparo físico não tornam ninguém imune à ansiedade, à pressão e ao sofrimento psicológico.
Mas e o tenista amador?
Aquele que trabalha durante o dia, tem compromissos familiares, joga algumas vezes por semana e participa dos torneios do clube também pode sofrer com as pressões do esporte?
Pode. Mas é importante colocar essa discussão na perspectiva correta.
Para a grande maioria dos praticantes, o tênis é uma atividade extremamente positiva. Proporciona exercício físico, convívio social, desafio, competição, diversão e uma importante válvula de escape para as pressões da vida cotidiana.
O problema começa quando aquilo que deveria contribuir para o equilíbrio passa a ser mais uma fonte de cobrança.
O adversário está do outro lado. Mas nem sempre.
Existe uma característica particular no tênis: principalmente nas partidas de simples, o jogador está praticamente sozinho para resolver seus problemas. Errou? Foi ele. Tomou uma decisão ruim? Foi ele. Perdeu um ponto importante? Não existe companheiro para dividir a responsabilidade.
E ainda há tempo entre um ponto e outro para pensar sobre o que aconteceu. Essa combinação exige uma capacidade importante de auto-regulação. O jogador precisa aceitar o erro, reorganizar a atenção e começar o ponto seguinte sem carregar emocionalmente tudo aquilo que acabou de acontecer.
Para o profissional isso já é difícil e para o amador também. Talvez a diferença esteja nas consequências da derrota, mas não necessariamente nas emoções experimentadas dentro da quadra.
Quando a autocobrança ultrapassa o nível técnico
Quem trabalha diariamente com tenistas amadores provavelmente já presenciou uma situação curiosa: jogadores que treinam duas ou três vezes por semana exigindo de si mesmos uma regularidade que nem sempre é compatível com sua quantidade de treinamento, condição física e disponibilidade para o esporte.
Ele trabalha oito ou dez horas por dia, dorme mal em alguns períodos, enfrenta problemas profissionais e familiares, eventualmente chega cansado para jogar. Mas entra em quadra esperando que o saque, o forehand e o backhand funcionem como se o tênis fosse sua atividade principal.
Quando isso não acontece, começa a frustração. O erro deixa de ser apenas um erro técnico e passa a ser interpretado quase como uma falha pessoal. Surge então aquele diálogo interno que conhecemos bem nas quadras: “Como eu posso errar essa bola?”. “Eu treino e continuo fazendo isso”. “Hoje não estou jogando nada.”
O problema não está em querer melhorar. Competitividade e exigência fazem parte do esporte. O problema aparece quando o resultado passa a determinar a maneira como o jogador se enxerga.
O “amador profissional”
Existe hoje outro fenômeno interessante. Nunca o tenista amador teve acesso a tanta informação. Raquetes sofisticadas, relógios e sensores, estatísticas, vídeos, preparação física, suplementação, rankings, aplicativos, redes sociais e conteúdo produzido diariamente pelos melhores jogadores e treinadores do mundo.
Tudo isso pode ajudar. Mas também pode criar aquilo que eu chamaria de “amadorismo profissional”: o jogador tem uma vida de amador, mas começa a se cobrar emocionalmente como profissional. Só que existe uma diferença fundamental. O atleta profissional organiza grande parte de sua vida em torno do desempenho esportivo. Treinamento, recuperação, alimentação, sono e calendário fazem parte de uma estrutura construída para que ele possa competir.
O amador precisa encaixar o tênis dentro da vida. E não a vida dentro do tênis.
A competição muda a relação com o jogo
Treinar bem é uma coisa. Competir é outra.
No treinamento podemos repetir uma bola, conversar com o professor, corrigir um movimento e tentar novamente. Na competição não existe essa possibilidade. Cada ponto produz uma consequência imediata no placar.
É justamente aí que aparecem ansiedade, medo de errar, tensão muscular, alteração da tomada de decisão e comportamentos que muitas vezes não aparecem durante os treinamentos.
Isso não significa que competir faça mal à saúde mental. Significa que competir também precisa ser aprendido. Assim como treinamos saque, força, velocidade e resistência, podemos desenvolver estratégias para controlar a atenção, administrar o erro e lidar melhor com vitória e derrota.
E quando aparece uma lesão?
Talvez esse seja um dos momentos mais difíceis para o tenista amador. Para muitas pessoas, jogar tênis não significa apenas praticar exercício. É encontrar os amigos, competir, aliviar o estresse do trabalho e fazer algo que proporciona prazer.
Quando uma lesão afasta esse jogador da quadra, ele não perde somente algumas semanas de treinamento. Temporariamente, pode perder também uma parte importante de sua rotina social e de sua válvula de escape.
E existe outro problema. Quanto mais importante o tênis se tornou na vida daquela pessoa, maior pode ser a ansiedade para retornar. O jogador começa a contar os dias, teme perder seu nível de jogo e muitas vezes tenta voltar antes de estar realmente preparado.
Por isso, o retorno de uma lesão não deveria considerar apenas se o joelho, o ombro ou a coluna estão preparados para jogar novamente. Existe também a confiança de voltar, o medo de sentir dor novamente e a necessidade de recuperar progressivamente a condição física.
Será que o problema está sempre na cabeça?
Aqui entramos em uma questão que considero particularmente importante.
Quando falamos em saúde mental no tênis, não podemos separar completamente a cabeça do corpo. O jogador cansado toma decisões piores. Quando perde velocidade de deslocamento, chega atrasado na bola. Quando perde força, começa a compensar movimentos.
Quando não consegue sustentar a intensidade do jogo, aquilo que inicialmente era uma dificuldade física pode rapidamente se transformar em irritação, insegurança e frustração. Muitas vezes ouvimos um jogador sair da quadra dizendo: “Hoje minha cabeça estava ruim”.
Mas será que era somente a cabeça? Talvez ele simplesmente não tivesse condições físicas naquele momento para executar aquilo que tecnicamente sabia fazer.
É por isso que considero o condicionamento físico uma parte importante da relação saudável do tenista com o esporte.
Preparar o corpo para jogar tênis
Este ponto é especialmente importante para o amador.
É muito comum encontrar jogadores que querem jogar três, quatro ou até cinco vezes por semana, disputar torneios e partidas longas, mas praticamente não reservam tempo para preparar o corpo para suportar essa demanda.
Jogar tênis regularmente não substitui uma preparação física adequada para o tênis. O tênis exige aceleração, desaceleração, mudanças constantes de direção, força, potência, mobilidade, estabilidade, coordenação e capacidade de repetir esforços durante toda a partida.
Essas capacidades precisam ser treinadas. E, à medida que envelhecemos, preservar força e massa muscular torna-se ainda mais importante.
Um jogador fisicamente mais preparado tende a conseguir sustentar melhor sua técnica ao longo da partida, tolerar melhor a carga de treinamento e competição e estar mais preparado para as exigências mecânicas do esporte.
Existe ainda um componente que considero fundamental: confiança física também pode gerar confiança para jogar. Saber que o corpo está preparado para uma partida longa, que consegue chegar em uma bola mais distante, desacelerar com segurança ou repetir esforços sem perder completamente a qualidade do movimento retira uma preocupação a mais da cabeça do jogador.
Preparação física, portanto, não deve ser vista apenas como uma maneira de correr mais ou bater mais forte. Para o tenista amador, ela é uma ferramenta para jogar melhor, jogar por mais tempo e manter uma relação mais saudável com o esporte.
Nem todo tenista precisa treinar da mesma maneira
Se cada jogador é diferente, por que todos deveriam receber exatamente o mesmo treinamento?
Idade, histórico esportivo, condição física, frequência de jogos, lesões anteriores, disponibilidade para treinar e objetivos pessoais já são informações fundamentais para individualizar a preparação.
Hoje podemos acrescentar mais uma ferramenta a esse processo: a genética. No 5º SET – TFI, utilizamos o mapeamento genético esportivo como uma ferramenta complementar para conhecer algumas características individuais do praticante.
Analisamos marcadores relacionados a características como força e potência, metabolismo energético, recuperação, resposta inflamatória, defesa antioxidante, resposta vascular e características dos tecidos conjuntivos.
Mas é importante deixar algo muito claro. Não existe “gene do campeão”. E um resultado genético não determina aquilo que uma pessoa pode ou não pode fazer.
Genética representa predisposição, não destino. O objetivo do mapeamento é acrescentar informação.
Quando combinamos esses dados com idade, histórico esportivo, rotina de tênis, lesões anteriores, avaliação física, disponibilidade para treinamento e objetivos pessoais, podemos individualizar melhor algumas decisões relacionadas ao condicionamento físico.
Quanto espaço devemos dar ao treinamento de força? Como distribuir estímulos de potência e condicionamento? Quais características merecem maior atenção? Como organizar treinamento e recuperação? O exame genético isoladamente não responde a todas essas perguntas. Mas pode acrescentar informações ao processo de tomada de decisão.
E talvez exista também uma relação interessante com o tema deste artigo. Conhecer melhor o próprio corpo ajuda a construir expectativas mais realistas sobre o treinamento e sobre a própria evolução.
O objetivo deixa de ser treinar como o parceiro, como o campeão do clube ou como o jogador profissional que aparece nas redes sociais. Passa a ser descobrir qual é a melhor maneira de você treinar para jogar o seu melhor tênis.
Afinal, o tênis faz bem ou mal para a saúde mental?
Na maioria das situações, faz muito bem.
O tênis proporciona atividade física, desafio, convivência social, competição e prazer. Para muita gente, aquelas duas horas na quadra estão entre os melhores momentos da semana.
Ao mesmo tempo, o caráter individual e competitivo do esporte cria desafios psicológicos próprios, não existe contradição nisso.
O tênis pode ser simultaneamente uma excelente ferramenta de bem-estar e um ambiente capaz de produzir pressão psicológica.
A diferença está, muitas vezes, na relação que construímos com o esporte. Querer ganhar é saudável. Querer evoluir é saudável. Ficar frustrado depois de uma derrota também faz parte.
O sinal de alerta aparece quando perder estraga sistematicamente o restante do dia, quando jogar passa a produzir mais ansiedade do que prazer, quando a raiva se torna frequente ou quando o resultado começa a interferir excessivamente na autoestima e nas relações fora da quadra.
Talvez seja preciso reaprender a perder
Existe uma habilidade que ensinamos pouco no esporte amador: saber perder. Isso não significa aceitar passivamente a derrota ou deixar de ser competitivo. Muito pelo contrário.
Significa conseguir analisar o que aconteceu, identificar o que pode ser melhorado e seguir em frente. Afinal, existe uma característica matemática do tênis que deveria colocar tudo isso em perspectiva: em praticamente todo torneio, todos os participantes terminam perdendo, menos um.
Se a única forma de sair satisfeito da quadra for vencendo, o tênis inevitavelmente produzirá mais frustração do que prazer. Talvez, portanto, a pergunta mais importante para o tenista amador seja muito simples: o tênis está acrescentando qualidade à minha vida ou estou transformando o tênis em mais uma cobrança dentro dela?
Treine para melhorar. Prepare seu corpo. Cuide da sua recuperação. Procure conhecer suas características individuais. Entre em quadra querendo ganhar. Fique incomodado quando jogar mal e procure entender o motivo. Isso também é esporte.
Mas não se esqueça de uma diferença fundamental: o profissional organiza a vida para jogar tênis, o amador precisa encaixar o tênis dentro da vida.
Quando essa relação está equilibrada, competir continua sendo importante, melhorar continua sendo um objetivo e ganhar continua sendo muito bom.
Mas o resultado deixa de ser maior do que aquilo que nos levou à quadra em primeiro lugar: o prazer de jogar tênis.
Bons treinos!
Licenciado em Educação Física, pós-graduado em treinamento esportivo e com diversas formações na área do treinamento físico e qualidade de vida, Eduardo Faria trabalha com tenistas desde 1986, ao lado de Fernando Meligeni, Flávio Saretta, Alexandre Simoni, Vanessa Menga e Thiago Alves, entre outros. Integrou a equipe da Copa Davis desde do final dos anos 90 até os dias atuais, atuando com nomes como Andre Sá , Bruno Soares, Marcelo Melo, Gustavo Kuerten e Marcos Daniel. É fundador da empresa ‘5º Set’, contendo o programa TFI (Treinamento Físico Inteligente), que combina testes físicos, mapeamento genético e avaliação nutricional para melhorar a performance de tenistas, do amador ao profissional: confira detalhes em quintoset.com.br.
