João Fonseca tem chamado tanto a atenção do torcedor brasileiro que, por vezes, esquece-se da top 5 Luísa Stefani e seus ótimos resultados. Agora, os gaúchos Orlando Luz e Rafael Matos reforçam a importante tradição que o tênis nacional tem nas duplas e se tornam a primeira parceria genuinamente brasileira a ganhar um Masters 1000, a série mais nobre de torneios depois dos Grand Slam.

Não é de hoje que Matos se firmou como um dos melhores duplistas em atividade. O canhoto de 30 anos tem títulos em todos os pisos, chegou ao 28º posto do ranking e a um troféu de Grand Slam, com as mistas do Australian Open ao lado de Stefani. O currículo, antes do Masters canadense, incluía dois ATP 500 no saibro carioca e vices de 500 na dura de Tóquio e de Washington. Teve cinco parceiros diferentes em seus 14 troféus e, como diz meu mestre Thomaz Koch, isso comprova a excelência de um duplista.

A boa surpresa é Orlandinho. Jogador de grande habilidade e carreira juvenil empolgante, não produziu em simples como se esperava, tendo feito uma única final de challenger em 2021, quando perdeu para Holger Rune. Pouco antes, revelou ter descoberto em 2017 uma doença degenerativa da córnea, chamada ceratocone, que exigiu cirurgia e muita adaptação. As duplas seguraram sua carreira nesse período, com muitos títulos de nível “future” e três de challenger entre 2019 e 2020. A temporada seguinte foi decisiva para ele se enxergar de vez como duplista. Ganhou 12 torneios, oito deles challengers, dois ao lado de Matos. O mesmo Rafa seria seu parceiro no primeiro troféu de ATP, em Bastad de 2024, mas o dueto só se fixou há pouco mais de sete meses e desde então só deu frutos bons, incluindo os 250 de Buenos Aires e Santiago.

Apesar do título juvenil de Wimbledon em 2014, ao lado de Marcelo Zormann, Luz sempre se caracterizou por um duplista de saibro, com raro sucesso em quadras duras. Por isso, a conquista desta quinta-feira em Montréal tem um valor dobrado porque mostra que a parceria começou a se encontrar também fora da terra e isso é fundamental para pensar em voos mais altos e, quem sabe, vaga no Finals de Turim.

A campanha magistral destas duas semanas incluíram vitórias sobre parcerias muito bem colocadas no ranking e experiência superior, como o caso da final diante de Mate Pavic e Marcelo Arévalo, ex-líderes do ranking e parceiros há três temporadas com grandes conquistas. Os brasileiros chegaram a ter quebra de vantagem no primeiro set, permitiram empate por 4/4 e saíram atrás do placar mesmo jogando bem. O bom saque e principalmente as devoluções e passadas levaram à virada de gabarito, incluindo domínio inconteste no match-tiebreak, onde foram mais precisos.

Há muitos segredos desta parceria que funcionam bem. Matos é canhoto, segura muito bem o fundo da quadra, dosando a hora certa de forçar o forehand carregado de veneno, enquanto Orlandinho tem sacado cada vez melhor, é extremamente hábil junto à rede e também tem um forehand pesado. Foi com ele, aliás, numa devolução de saque fenomenal na paralela, que ele selou a partida histórica que deu ao Brasil seu 19º troféu de Masters.

Os dois terão nesta quinta-feira os melhores ranking de suas carreiras. Rafa sobe para 20º, tornado-se o 10º jogador brasileiro a figurar nessa faixa de ranking somando simples e duplas, e estará apenas duas posições à frente de Luz. Nenhum deles tem resultado a defender durante Cincinnati, mas eles só começam a somar a partir das oitavas de final. O inesperado título os levou ao oitavo posto na classificação da temporada, com vantagem de apenas 40 pontos para Kevin Krawietz e Tim Putz. Precisarão de semifinal para ameaçar os sétimos colocados.

O importante é que o dueto gaúcho ganhou confiança e respeito do circuito, sobe na lista dos cabeças de chave e assim estão de vez na briga por Turim, tendo diante de si um segundo semestre animador na quadra sintética.

Iga voltou!

Foram quase oito meses de frustrações, atuações irregulares, nervos fora do lugar e uma falta de consistência que raramente havia se visto antes. Mas enfim Iga Swiatek está de volta. Não apenas fez sua primeira final da temporada, como levantou seu 12º troféu de nível 1000 da recheada carreira, com direito a retornar ao top 5 do ranking.

Talvez a mudança de chave tenha vindo na vitória de oitavas sobre Marta Kostyuk, certa vingança sobre a queda no saibro de Paris. O jogo foi tenso e duro e a partir daí a polonesa lembrou seus bons tempos. Ainda teve jogo exigente na semi contra Elina Svitolina, definido nos games finais, e na decisão desta quinta-feira se mostrou muito superior a Elena Rybakina. Duelo, aliás, que pode se repetir daqui a pouco nas quartas de Cincinnati.