Por Gabe Jaramillo
Especial para TenisBrasil
– Fique quieto! Eu sei o que estou fazendo!
A voz vinha da quadra do Ariake Colosseum. O inglês era perfeito. O problema era que ele estava falando comigo.
Kei Nishikori estava nervoso, e seus pés pareciam grudados no chão. Desesperado para fazê-lo reagir, gritei no meu japonês bastante duvidoso:
– Ashi o ugokashite! Mexa os pés!
A resposta veio alta e clara. Bom, pensei, pelo menos as aulas de inglês estão dando resultado.
Hoje, enquanto Kei se despede do tênis profissional, essa lembrança me faz sorrir. Depois vem a nostalgia. Como assim, ele vai se aposentar? Não foi ontem que chegou à nossa academia, ainda menino?
Depois de mais de 50 anos como treinador, vi muitos dos meus alunos se tornarem campeões. Lotam estádios, levantam troféus e ouvem milhares de pessoas gritando seus nomes. Até que chega a hora da despedida. E, por algum motivo, o treinador nunca está totalmente preparado.
Fecho os olhos e ainda vejo o pequeno Kei chegando com um sonho. Graças à Fundação Morita, liderada por Masaaki Morita, ele recebeu uma oportunidade extraordinária: uma bolsa que cobria seus estudos, treinamento e torneios nos Estados Unidos até os 18 anos.
A Fundação podia pagar suas despesas. O que não podia fazer era poupá-lo da saudade de casa. Imaginem um menino a milhares de quilômetros da família, cercado de desconhecidos e sem falar o idioma. Até pedir o almoço podia virar uma aventura.
Depois vinha o trabalho: horas em quadra, repetições intermináveis, preparação física e escola. Principalmente escola. A educação fazia parte do compromisso com a Fundação, e um bom forehand não justificava uma tarefa por fazer.
Pelo caminho, descobrimos que nossas responsabilidades iam muito além do tênis. Uma vez, depois de um voo de 17 horas, chegamos ao aeroporto de Narita. Kei parecia ter brigado com o travesseiro e perdido: cabelo para todos os lados, camisa amassada e ainda meio dormindo.
Uma multidão de jornalistas nos esperava. As câmeras começaram a gravar. As perguntas vinham sem parar.
Uma pergunta curta.
– Hai.
Uma pergunta longa.
– Hai.
Outra pergunta. Outro “Hai”.
Sim. Sim. Sim.
Tínhamos dedicado incontáveis horas a prepará-lo para enfrentar os melhores jogadores do mundo. Evidentemente, também precisávamos prepará-lo para lidar com um microfone.
Então vieram os momentos de que todos se lembram. Seu primeiro título de ATP em Delray Beach, em 2008, saindo do qualificatório. A vitória sobre David Ferrer no US Open daquele ano. Seu primeiro título no Japan Open, em 2012, ao derrotar Milos Raonic diante da torcida japonesa.
Depois, a final do US Open de 2014. E o posto de número quatro do mundo.
O menino que respondia a tudo com “Hai” tinha dado muito o que falar no mundo do tênis.
Obrigado, Kei, pelas vitórias, pelas risadas e pelo privilégio de ver você crescer. Obrigado, Masaaki Morita, por confiar em mim e em nossa equipe. Por trás de cada campeão, há pessoas cujos nomes nunca aparecem no placar.
Agora, desejo a você felicidade ao lado da família e tempo para realizar os sonhos que precisaram esperar enquanto o tênis vinha em primeiro lugar.
Desta vez, não tenho um horário de treino para você.
E, se me disser que sabe o que está fazendo, prometo ficar quieto.
Gabe Jaramillo é um renomado treinador de tênis, empreendedor, escritor e palestrante motivacional de ascendência colombiana/americana. Treinou 11 jogadores que chegaram ao nº 1 do mundo e 27 jogadores top 10, incluindo Agassi, Sharapova, Seles e Nishikori. Atualmente como CEO da RPS Academies, academia multiesportiva na Flórida, Jaramillo continua a inovar. Seu canal Tennis On Demand no YouTube tem mais de 13 milhões de espectadores e seu Instagram soma mais de 220 mil seguidores. Ele é autor de “How to Make Champions”, publicado em inglês, espanhol e mandarim. O site oficial é gabejaramillo.com.
