O tênis se despediu nesta terça-feira não apenas de um dos nomes mais carismáticos já vistos em quadra, mas também de um dos raros nomes que ousaram desafiar o Big 3 no seu auge.

Stan Wawrinka nunca foi exemplo de apuro físico, nem de frieza. Passou boa parte de sua longa carreira em segundo plano, ora por falta da mobilidade e resistências ideais, ora por falhar nas horas decisivas. Demorou seis temporadas para fazer suas primeiras quartas de Slam.

Ele soube, no entanto, dar a volta por cima. No curto espaço de três mágicos anos, ganhou três troféus em diferentes Grand Slam e entrou para a lista dos gigantes. Em todos eles, derrubou o Big 3. Tirou Novak Djokovic e Rafael Nadal no Australian Open de 2014, superou Roger Federer e Djokovic em Roland Garros de 2015 e bateu Juan Martin del Potro antes de nova final contra Nole no US Open de 2016.

Faltou, é verdade, consistência. Sua qualidade técnica não lhe deu mais do que um Masters 1000 e três semis de Finals, compensados em menor grau pelo ouro olímpico de duplas e a Copa Davis. Porém Stan nunca foi um tenista padrão. Deu-se ao luxo de tocar a carreira do seu jeito, sem sacrificar momentos de descontração e lazer, abusando por vezes do condicionamento físico rígido. Um bon-vivant que contrastou sempre, e sem remorsos, de seus contemporâneos megacampeões.

Talvez por isso tenha ganhado tanta popularidade. Alegre, descontraído, por vezes resmungão e briguento, Stan refletia leveza de espírito em quadra, sem perder a determinação e a classe. Transformou até seus uniformes, tão relaxados, numa marca.

Claro que seu backhand de uma mão, para mim o melhor já visto, ajudou muito. Cada vez mais em extinção, segue como o golpe mais clássico e encantador do tênis e Wawrinka soube executá-lo com plasticidade e eficiência assombrosa. Será eternamente lembrado por isso.

Vale listar aqui os cinco jogos que o próprio Wawrinka elegeu como suas maiores atuações. Ele começa pelas finais do US Open de 2016 e de Roland Garros de 2015 contra Djokovic; cita a semi desse mesmo Paris contra Jo-Wilfried Tsonga, relaciona depois a decisão do Australian Open de 2014 contra Nadal e por fim me surpreendeu ao fechar com a vitória em cinco sets sobre Ivo Karlovic em Wimbledon de 2006.

A geração de ouro, que já viu também a aposentadoria de Andy Murray, agora se despede de Wawrinka e deixa Djokovic ainda mais isolado como o último representante da era mais espetacular já vista no circuito masculino em todos os tempos.