Felipe Priante

São Paulo (SP) – Em entrevista coletiva concedida nesta quinta-feira, a paulista Beatriz Haddad Maia esclareceu melhor sobre os motivos que a levaram a fazer uma pausa na carreira neste ano. Sem competir desde Wimbledon, ela contou que refletiu sobre sua relação com o tênis nos dias seguintes até decidir parar por um tempo.

Bia garantiu que a decisão veio de um processo que começou já em 2024. “Eu acho que foi uma soma de fatores. Sendo muito sincera, quem me acompanha de perto sabe que desde 2024 eu vinha convivendo com problemas. No final do ano estava para sair do top 20 e flertei também com momentos em que me questionei, mas aí vieram os resultados”.

Duas temporadas atrás, Bia chegou a sair do top 20 por algumas semanas, mas um bom resultado no US Open, indo até as quartas de final, e principalmente o título no WTA 500 de Seul, acabaram mascarando um momento em que as dúvidas já começavam a surgir.

“Então, o fato de ter vindo o resultado foi algo que também ofuscou um pouco aquilo que eu estava sentindo e aquela sensação do quanto o momento estava sendo duro para mim. Em 2025, foi um ano muito duro para mim, eu já estava muito esgotada mentalmente”, analisou a canhota paulista, que começou a tentar coisas diferentes sem grande sucesso.

Na atual temporada, Bia foi além e mudou a equipe técnica, foi para a Europa por um período mais longo, só que nada rendeu frutos. “Aí eu entendi que além dos resultados não estarem bem, não era algo externo, não era trocar de treinador, não era eu mudar de ambiente, mudar de país ou mudar de língua. Era tudo o que eu estava sentindo”, confessou Bia.

A ex-top 10 em simples e duplas chegou a pensar, nos momentos mais difíceis, que o tênis poderia não ser mais para ela. “Eu pensei e ainda penso. Suportei coisas que obviamente as pessoas não têm ideia”, comentou a tenista de 30 anos.

Construindo um caminho novo

Os pensamentos conflitantes de Bia em relação ao tênis, que desde os 4 anos de idade está inserido no seu cotidiano, com o amor pela modalidade e a exaustão psicológica que o circuito lhe trouxe foram algo que mexeram muito com a cabeça de jogadora, que escolheu fazer essa pausa justamente para poder ser reconectar com o esporte no futuro.

“Agora, o caminho não é ir atrás do circuito nesse momento, para mim é como se eu tivesse que fazer um retorno e talvez parar ali durante cinco dias e depois voltar. Então na minha cabeça é como se eu estivesse buscando o meu sonho de uma forma diferente”, afirmou a dona de quatro títulos de simples e oito de duplas na WTA.

“Isso para mim ainda é difícil, porque o tênis é um esporte que eu escolhi porque eu amo, porque eu amo competir. Eu sempre gostei”, acrescentou Bia, que não quer deixar para trás sua história nesta construção de seu novo caminho com o tênis.

Os momentos difíceis e de superação são fundamentais para Bia chegar onde chegou, tanto às glórias no circuito, como ao peso de não ter tempo para refletir sobre o que já passou. Com este afastamento, ela reflete sobre tudo o que passou e percebe como foi atropelando os contratempos sem parar para pensar neles.

“Eu podia ter parado na primeira pedra de caminho, uma cirurgia com 16 anos na coluna, podia ter parado com uma cirurgia no ombro aos 19, podia ter parado de novo aos 21 anos, com uma cirurgia na coluna, podia ter parado quando o vidro do box estourou quando eu era a nona na corrida do WTA Finals, podia ter parado quando veio a suspensão, podia ter parado quando o meu dedo apareceu um tumor e eu tive que tirar e fazer enxerto do meu quadril”, enumerou Bia.

“Podia ter parado mil vezes e agora, para mim, é muito duro porque a parte mental é como se fosse uma lesão, como se fosse uma cirurgia. Estou aprendendo muito com esse momento e esse pensamento em relação a como vou enxergar o tênis na minha vida”, complementou a paulista.