Nova York (EUA) – Kenny Thorne, técnico principal da equipe masculina de tênis do Georgia Institute of Technology, em entrevista a Andrew Eichenholz do ATPTour.com, disse se lembrar vividamente de Ben Shelton aos nove anos de idade, durante o acampamento de verão da instituição, muito antes de ele se tornar semifinalista do US Open em múltiplas ocasiões e de ter novamente a chance, nesta sexta-feira, contra Frances Tiafoe, de chegar à sua primeira final de Grand Slam em Nova York.
“Dava para ouvi-lo de longe nas quadras”, relembra Thorne. “Quatro, cinco, seis quadras de distância. A maioria das crianças de nove anos é meio tímida e apenas tenta se enturmar. Ben, aos nove anos, tentava ajudar sua equipe a vencer, jogando com garotos de 15, 16 e 17 anos. Ele já trazia aquela energia naquela época, estava no DNA dele.”
Thorne cresceu competindo no circuito juvenil no Alabama ao lado de Bryan Shelton, pai de Ben. Eles competiram juntos pela Georgia Tech e chegaram a jogar duplas no circuito da ATP, enfrentando Andre Agassi e John McEnroe no Masters 1000 de Toronto, em 1992. Mais tarde, Thorne assumiu o comando da equipe masculina da Georgia Tech, enquanto Shelton treinava a equipe feminina.
As famílias dos dois também se tornaram muito próximas. Ben e Daniel, filho de Thorne, estudaram juntos em casa na pré-escola. “Minha esposa e Lisa (Shelton) se revezavam, levando os dois para suas casas. Então, ele estava sempre por perto. Ele e Emma (irmã de Bem) estavam sempre por perto. Bryan e Lisa fizeram um trabalho incrível na criação dos filhos, ensinando-os a serem respeitosos. Ele era uma daquelas pessoas para quem eu sempre podia enviar meus filhos, e eles voltavam melhores.”
A família Shelton se mudou para a Flórida em 2012, quando Bryan assumiu como técnico principal da equipe masculina da Universidade da Flórida. Mas até hoje poucos conhecem a família tão bem quanto Thorne a ponto de entender por que pai e filho funcionam tão bem como dupla de técnico e jogador. “Acho que eles se complementam muito bem. O Bryan não tenta fazer com que o Ben seja como ele, e acho que o Bryan conhece o Ben. Todos nós conhecemos nossos filhos, mas ele parece saber o que o Ben vai fazer antes mesmo de ele agir. Ele meio que consegue ler isso”, explicou Thorne. “O Ben é independente, segue o seu próprio caminho. Mas ele entende que o Bryan realmente estuda e domina o jogo, então acho que existe um respeito mútuo ali. Acho que o Bryan vê algo especial no Ben.”
Thorne acompanhou de perto a evolução do canhoto sob a orientação do pai. “A evolução é impressionante. Eles nunca se acomodam … É assim que a mente do Bryan funciona. Ele pensa: ‘O que podemos melhorar?’ Ele pensava assim durante toda a fase universitária com o Ben. O Ben estava lá vencendo jogadores muito bons. Mas o Bryan pensava: ‘É, ele não está executando bem aquele saque com efeito aberto’. Ele é extremamente focado no que precisa desenvolver mais”, explica Thorne.
“E o Ben é parecido. É sempre ele quem quer ir treinar um pouco mais, bater mais algumas bolas, ajustar detalhes e seguir em frente. Acho que, às vezes, os resultados não refletem isso, mas eles estão sempre fazendo melhorias. É um processo constante.”
Muito se fala sobre o jogo de Shelton em relação ao seu saque. Mas, segundo Thorne, ele é um dos melhores competidores que já viu. “Ele pode perder jogos e passar por momentos difíceis. Lembro-me de uma fase em que ele ficou um tempo perdendo e, de repente, engatou uma grande sequência — acho que foi no US Open, alguns anos atrás”, disse Thorne. “Mas ele ficava surpreso por não estar vencendo. Ele dizia: ‘Vai acontecer. Vai acontecer, vai acontecer’. E isso é algo muito difícil de ensinar. Ele acredita que pertence à elite.”
Foi o que aconteceu na madrugada de quarta-feira, quando Shelton travou uma batalha intensa até o quinto set contra o atual campeão, Carlos Alcaraz. Thorne sempre apoia Shelton quando pode, e foi isso que fez durante a memorável vitória do americano nas quartas de final. O técnico da Georgia Tech permaneceu no camarote de Shelton até o fim, às 3h33 da manhã. Thorne não ficou para ver Ben após a partida, pois ele e a esposa precisavam voltar a Manhattan para pegar as malas e seguir direto para o aeroporto, onde embarcariam em um voo por volta das 7h.
